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14 agosto 2026

SE ISTO É UMA MULHER

 


Imagem criada por mim, com ajuda da IA





Acho ridículo todo o tipo de discussão ligado a desigualdades, de género, cor, raça, crença… Infelizmente, ao longo dos tempos as diferenças impuseram-se. Primaram, sobretudo, pela ajuda da religião e capacidade bélica acoplada ao poder. Mas durou e ainda dura, pela falta de coragem, de união, humanismo, muito egoísmo, desinteresse e absoluta ignorância.

Estamos em pleno século XXI, a humanidade está como está e eu acabo de saber do “Movimento das Mulheres Conservadoras”, que só poderia estar ligado ao “Chega”. Caramba!!! Sinto o sangue ferver, a raiva a subir, mas sobretudo a vontade de chorar. Sim, chorar bastante, com aquele aperto incomodativo no coração e o atrofiar do estômago.

Não pode! Não pode haver tanta ignorância!

Mais que um problema político e religioso, trata-se de um problema social.

Com 13 anos e fraca consciência política — por falta de comparações e muita programação familiar e escolar — coloquei em causa a existência do Deus que me era imposto e, por via de dúvidas, questionei a própria entidade. Até hoje aguardo resposta, mas não arredo pé, porque não preciso de castigos para ser boa pessoa: ou se é ou não se é!

Foi o abrir de olhos e de alma, o passo maior para o que se seguiria: a solidão, o abandono, o desnorteio. Foi também o entrar da coragem, do acreditar, do uso do pensar, do ímpeto de agir pelo sentimento e razão, do sonhar.

Tinha eu 15 anos, muita sova no corpo e milhões de questões que me propunha desvendar, quando o “25 de Abril” aconteceu. Jamais entendi a súbita mudança (dita) de mentalidades. Então era assim??? Alteram-se umas leis e coisa e tal e pimba: agora somos diferentes.

Considerava — ainda considero e repito — que: ou se é ou não se é! Quanto muito, aceito que as mentalidades mudem, mas por processos pessoais de consciência, conhecimento e descoberta, que darão lugar à coragem, afirmação e interiorização. Ainda sou das que acredita que a mudança é sempre possível, desde que não imposta, antes sentida.

A diferença maior, entre homem e mulher, reside no físico. Sempre senti como tal e, por isso, fiz frente à opressão e injustiça, com coragem — vinda sabe-se lá de onde — avançando com o corpo franzino, aquando da defesa de outro ser, usualmente mulher, com resultados não muito satisfatórios a nível físico e, sobretudo, a nível moral.

Sim, a maior diferença existe entre o físico da mulher e o físico do homem. Já vem do tempo das cavernas e todos deveriam saber isso.

O dever da obediência e submissão, conseguidos pela força física: músculos contra não músculos, com resultado nítido de atrofia de inteligência (para ambos os lados).

Esta incapacidade física fazia-me confusão e já me imaginava a dar outro uso ao ferro de engomar e outros utensílios domésticos quando chegasse a minha vez de ser mulher.

Hoje, fico absurdamente desiludida que aquelas senhoras se juntem na defesa do retrocesso, estupidificação e prisão, justo elas que – tenho a certeza – nunca souberam o que é um murro ou pontapé nas costelas. Que jamais lutaram para singrar nos estudos. Que nunca sentiram humilhação por serem consideradas inferiores.

Essas senhoras que nunca encostaram um homem a uma parede, com propósito de o esmurrar, após serem comparadas a “um carapau”, ou outra qualquer “iguaria a ser papada, mas a quem – generosamente - poupariam os olhinhos para ir ao cinema”.

Nada contra serem e viverem o que quiserem, mas criar um movimento para tal?!?!?! Não!!!!!!!!!

Onde estão as Joana d’Arc, as Maria da Fonte, as Florbela Espanca, as Padeira de Aljubarrota, as Maria Lamas, as Aida Magro, as Maria Isabel Aboim Inglês…? Onde está a coragem de ser, genuinamente, não por mudança de leis?

Percebo, na penumbra dos cobardes, olhares de gozo. E sinto vergonha por ser um ser humano. Hoje, vergonha por ser mulher.

Não tenciono deixar de ser o que sou, assumo a minha condição, o meu pensar, os meus juízos de valor, mas sobretudo, assumo as minhas decisões, os meus propósitos e os meus sonhos.

Já alguém disse a essas senhoras do tal movimento que a ternura, a amizade e o amor pode existir em ambos (homem e mulher)? Também a partilha, o respeito pelas diferenças e necessidades de cada um, a admiração mútua, o sonhar a dois, o dar a mão e a procura da felicidade?

Ninguém, muito menos dondocas, farão com que me sinta inferior ou incapaz, venha lá a lei que vier.

Nota: O título foi dado por me identificar com o livro de Primo Levi, “Se questo è un uomo”. Aqui a vítima não é mulher, não é homem. Aqui a vítima são todos os que sentiram na pele e na mente a crueldade, a subjugação pela força, a loucura da massificação, do caminhar de pensamento vazio, na incapacidade de perceberem que a união faz a força e que a revolta contra o mal será sempre motivo de orgulho. A sobrevivência dos mais fortes de entre os mais fracos.

Vá lá eu entender esta correspondência que sinto, onde o frio pode ser o maior problema, logo seguido pela fome.

14 junho 2026

Náufraga de Ti

14 de Junho, o dia que pertence por inteiro à minha querida e saudosa amiga Raquel


Aparecias de repente, com o à vontade que me faltava. Vinhas encontrar-te comigo, buscar-me. Trazias o entusiasmo e a alegria que me contagiava, que me transformava no que pensavas ser eu. Eu, que sempre fui um fruto de ti. Eu, aquela pequenina à deriva que se encaixava no teu mundo, que admirava a tua desenvoltura, a tua segurança, a tua coragem e até os teus desabafos. Eu, que sem mostrar as limitações de que era feita, seguia contigo, sem hesitar.

Não era eu, era o que de mim fazias!

Algum dia a linha que nos unia – abruptamente cortada – será atada, colocada em nosso redor, e nos projectará para o mundo irrequieto, cheio de vida, nascido de nós?

Busco a minha rocha, a minha jangada. Perco-me na tentativa de encontrar um quadro qualquer que me demonstre que tudo isto faz sentido. Agarro-me tanto aos sonhos, ao que sinto e invento nesta febre de viver, que adormeço o sofrimento e disfarço-me de mulher guerreira.

No final, nem chegar a ti eu sei.

Contigo eu usei uma das minhas melhores máscaras: uma extensão de ti. As máscaras que agora uso dão-me o suporte vertical para aguentar este corpo, vestem-me de comportamentos e sentires que, nem de longe, se podem comparar ao meu eu partilhado contigo. São máscaras que transbordam de uma valentia fingida, porque muito de mim é fraqueza.

Aqui estou, de novo pronta para ti, pronta para nós e, no entanto, miserável e inevitavelmente só.

Fazes-me tanta falta!

Dizem haver um plano qualquer nisto tudo, um plano escolhido por nós. Não entendo. Como podemos escolher esta dor? Tu a partires sem mim, eu a ficar sem ti. E o desconsolo que sinto é tanto, mas tanto, que só me apetece gritar. E no choro que sai raivoso, que abana toda a minha estrutura muscular, não consigo despertar o sorriso que me leve a ti.

Assim me encontro, neste estado de alma abandonada.

Festejo o teu dia no levantar de um copo dirigido ao vazio, um vazio do tamanho do mundo, um vazio que me aperta o coração, me retesa os músculos, me crava as unhas pela alma e a põe a sangrar. Na mão erguida, treme o pânico de que não me vejas, nem sintas.




09 junho 2026

Floquinhos de sonho

 

Alguém me disse que, a pedir, pede-se alto.

Nunca o consegui fazer. Continuo a pedir pouco, sempre pouco, pelo menos a meus olhos.

Meus sonhos estilhaçam-se em pequeninas doses. 

São algodão doce a derreter em farrapos.

Não temo por serem poucos, temo que se acabem.

Sonhar é a maior riqueza que possuo enquanto ser humano. Curioso é perceber que muitos sonhos nascem do rasgar da alma, dos pedaços que vou largando em sofrimento, dor e impotência.

Sonhar é a força que arranjo para continuar a encontrar-me e a reinventar-me.


Imagem: criada por mim com ajuda do Copilot 


Sonhar é o bálsamo das desilusões que por mim passam, o bálsamo que as transforma no meu coração, de pedra de calçada em baloiço de menina, que no seu balançar levanta o pólen das margaridas que tem ao colo e sorri, feliz.

Não sei o que vem primeiro, sou a confusão completa de sentimentos e pensamentos e, nessa mistura estranha, esfrangalhada, busco os tais pedacitos de algodão por entre o cinzento frio da dor.

E continuo enfiada nos segredos que teimo em guardar, enclausurada numa loucura solitária, com medo de me mostrar nas paranoias e inseguranças que fazem de mim o que sou.

E não sei o que sou!