Acho ridículo todo o tipo de discussão ligado a desigualdades, de género, cor, raça, crença…
Infelizmente, ao longo dos tempos as diferenças impuseram-se. Primaram,
sobretudo, pela ajuda da religião e capacidade bélica acoplada ao poder. Mas
durou e ainda dura, pela falta de coragem, de união, humanismo, muito egoísmo,
desinteresse e absoluta ignorância.
Estamos em
pleno século XXI, a humanidade está como está e eu acabo de saber do “Movimento
das Mulheres Conservadoras”, que só poderia estar ligado ao “Chega”. Caramba!!!
Sinto o sangue ferver, a raiva a subir, mas sobretudo a vontade de chorar. Sim,
chorar bastante, com aquele aperto incomodativo no coração e o atrofiar do
estômago.
Não pode! Não
pode haver tanta ignorância!
Mais que um
problema político e religioso, trata-se de um problema social.
Com 13 anos e
fraca consciência política — por falta de comparações e muita programação
familiar e escolar — coloquei em causa a existência do Deus que me era imposto
e, por via de dúvidas, questionei a própria entidade. Até hoje aguardo
resposta, mas não arredo pé, porque não preciso de castigos para ser boa
pessoa: ou se é ou não se é!
Foi o abrir de
olhos e de alma, o passo maior para o que se seguiria: a solidão, o abandono, o
desnorteio. Foi também o entrar da coragem, do acreditar, do uso do pensar, do
ímpeto de agir pelo sentimento e razão, do sonhar.
Tinha eu 15
anos, muita sova no corpo e milhões de questões que me propunha desvendar,
quando o “25 de Abril” aconteceu. Jamais entendi a súbita mudança (dita) de
mentalidades. Então era assim??? Alteram-se umas leis e coisa e tal e pimba:
agora somos diferentes.
Considerava —
ainda considero e repito — que: ou se é ou não se é! Quanto muito, aceito que
as mentalidades mudem, mas por processos pessoais de consciência, conhecimento
e descoberta, que darão lugar à coragem, afirmação e interiorização. Ainda sou
das que acredita que a mudança é sempre possível, desde que não imposta, antes
sentida.
A diferença
maior, entre homem e mulher, reside no físico. Sempre senti como tal e, por
isso, fiz frente à opressão e injustiça, com coragem — vinda sabe-se lá de onde
— avançando com o corpo franzino, aquando da defesa de outro ser, usualmente
mulher, com resultados não muito satisfatórios a nível físico e, sobretudo, a
nível moral.
Sim, a maior
diferença existe entre o físico da mulher e o físico do homem. Já vem do tempo
das cavernas e todos deveriam saber isso.
O dever da
obediência e submissão, conseguidos pela força física: músculos contra não
músculos, com resultado nítido de atrofia de inteligência (para ambos os
lados).
Esta
incapacidade física fazia-me confusão e já me imaginava a dar outro uso ao
ferro de engomar e outros utensílios domésticos quando chegasse a minha vez de
ser mulher.
Hoje, fico
absurdamente desiludida que aquelas senhoras se juntem na defesa do retrocesso,
estupidificação e prisão, justo elas que – tenho a certeza – nunca souberam o
que é um murro ou pontapé nas costelas. Que jamais lutaram para singrar nos
estudos. Que nunca sentiram humilhação por serem consideradas inferiores.
Essas senhoras
que nunca encostaram um homem a uma parede, com propósito de o esmurrar, após
serem comparadas a “um carapau”, ou outra qualquer “iguaria a ser papada, mas a
quem – generosamente - poupariam os olhinhos para ir ao cinema”.
Nada contra
serem e viverem o que quiserem, mas criar um movimento para tal?!?!?!
Não!!!!!!!!!
Onde estão as
Joana d’Arc, as Maria da Fonte, as Florbela Espanca, as Padeira de Aljubarrota,
as Maria Lamas, as Aida Magro, as Maria Isabel Aboim Inglês…? Onde está a
coragem de ser, genuinamente, não por mudança de leis?
Percebo, na
penumbra dos cobardes, olhares de gozo. E sinto vergonha por ser um ser humano.
Hoje, vergonha por ser mulher.
Não tenciono
deixar de ser o que sou, assumo a minha condição, o meu pensar, os meus juízos
de valor, mas sobretudo, assumo as minhas decisões, os meus propósitos e os
meus sonhos.
Já alguém
disse a essas senhoras do tal movimento que a ternura, a amizade e o amor pode
existir em ambos (homem e mulher)? Também a partilha, o respeito pelas
diferenças e necessidades de cada um, a admiração mútua, o sonhar a dois, o dar
a mão e a procura da felicidade?
Ninguém, muito
menos dondocas, farão com que me sinta inferior ou incapaz, venha lá a lei que
vier.
Nota: O título
foi dado por me identificar com o livro de Primo Levi, “Se questo è un uomo”.
Aqui a vítima não é mulher, não é homem. Aqui a vítima são todos os que
sentiram na pele e na mente a crueldade, a subjugação pela força, a loucura da
massificação, do caminhar de pensamento vazio, na incapacidade de perceberem
que a união faz a força e que a revolta contra o mal será sempre motivo de
orgulho. A sobrevivência dos mais fortes de entre os mais fracos.
Vá lá eu
entender esta correspondência que sinto, onde o frio pode ser o maior problema,
logo seguido pela fome.
