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03 fevereiro 2007

10 minutinhos

Foto: de Maria São Miguel in www.olhares.com




Há quantos anos ali vivia? Vinte? Mais? Pensou, enquanto aguardava que o Sr. Zé do quiosque terminasse a passadeira de peões. Seguiu em busca de um cantinho para o carro. Coisa difícil àquela hora. Ali estava!, bem em frente à papelaria, no cimo da estrada que a levaria à estação de comboios.

Saiu apressada, acenou ao dono da papelaria, que retribuiu o aceno e com a mochila a tentar agarrar-se ao ombro, o casaco a fazer o pino, a chave sem saber para onde ir e a pasta dos papéis a ameaçar deixar fugir todo o seu conteúdo, trancou o carro no trinco. Nunca usava a chave, o que a obrigou a assaltar o seu veículo mais que uma vez, após verificar que a miserável havia ficado na ignição. Com a planta do pé direito empurrou a porta, cuidadosamente, até sentir que esta se encontrava devidamente fechada. Correu pela ladeira, conseguiu tirar o telemóvel da bolsinha e verificar as horas. Ainda tinha tempo para tomar um galãozito com a sua amiga. Estaria ela na pastelaria?

As portas abriram à sua chegada. Antes de descer os três degraus da entrada, olhou em redor e viu o seu vulto junto ao balcão. Falava com a D. Dora, proprietária do estabelecimento. Entrou satisfeita. O Jorge, o mais novo dos empregados transmitiu a sua chegada.

- Galão de máquina com leite frio – disse alto.

Dirigiu-se ao balcão, colocou uma mão sobre o casaco de fazenda castanho claro da sua amiga e olhou-a sorrindo. O rosto da senhora voltou-se e retribuiu em delicado sorriso. Desde sempre vira o seu rosto com aquela candura.

Afinal, há quanto tempo tinha ido para ali morar? Vinte? Mais? Desde que os seus olhos se imaginaram em feliz liberdade. Fariam uns 22 anitos. Meses depois de ter casado com o seu melhor amigo, com quem viria a ter um maravilhoso filho.

A senhora era amiga da mãe de um grande amigo deles, por sua vez, uma mulher única, espectacular. Ambas nutriram por ela, desde logo, um carinho bom, a que não estava habituada.

- Vai comer alguma coisa? – perguntou a D. Dora, remexendo nos bolitos secos.

- Prove!... – disse ainda, sem aguardar resposta, estendendo-lhe um bolito, preso por entre os dentes da tenaz dos bolos.

Agradeceu, enquanto o retirava, ficando todos os seus pertences em completo malabarismo.

- Vai já embora Teresinha? – perguntou a sua amiga, ansiosa.

Teresinha. Sabia bem ouvir o seu nome no diminutivo. A D. Margarida, mãe do seu grande amigo também a tratara assim.

- Não, não. Tenho ainda 10 minutinhos – disse, olhando o grande relógio pendurado na parede, em frente à máquina do café.

- Sabe como é que eu posso conseguir um registo criminal? – perguntou um dos empregados, debruçando-se no balcão.

- Sei sim, Sr. Alfredo. Tem urgência? Trago-lhe amanhã uma folhita para preencher a dar-me autorização de o requerer.

- Não lhe custa nada? Não quero incomodar… - disse

- Não custa nadinha, não se preocupe – respondeu a rir.

Olhou o balcão, em busca do seu galão.

- O Jorge leva. Sente-se – disse a D. Dora, adivinhando-lhe o olhar.

Poderia transportá-lo até à mesa, mas não quis desagradar a senhora. Sentou-se em frente à sua amiga, na mesinha do cantinho, por baixo da grande janela envidraçada. A D. Nanda, arrastou uma outra cadeira para que pudesse colocar as suas coisas.

Trocavam já umas palavrinhas quando o Jorge colocou o copo do galão sob a mesa. Quase ao mesmo tempo estendeu um jornal à D. Nanda, que de imediato o guardou, agradecendo.

- É muito nosso amigo este rapazinho – disse sorrindo – Muito bom rapaz.

- É! Sempre atencioso – assentiu ela.

A D. Dora aproximou-se com uma saco de papel, onde se viam os nome, morada e logótipo da pastelaria.

- Tome. São para o seu lanchinho – disse, estendendo-lhe a saqueta.

- Ora… muito obrigada. É muito gentil – retorquiu, guardando-a na mochila.

Rasgou o invólucro do açúcar e despejou-o no café com leite. Ainda sorria enquanto mexia o líquido com a esticada colher.

- Pois é, Teresinha, é por isto que não quis sair daqui quando o meu marido faleceu – iniciou a sua amiga

– E se cheguei a ver outras casas… lá para os lados do meu filho. Mas sempre aqui vivi… ‘Não vale a pena procurar mais, tu não queres sair daqui, pois não mãe?’, ‘Não filho, não quero!’

O tom de voz demonstrava emoção, assim como se com o próprio filho falasse e despejasse, por um lado, o alívio de ter sido ele a dizê-lo, por outro o sentimento de culpa de não satisfazer o seu desejo de a ter mais perto. Como se a distância a tornasse menos mãe.

- Fez bem, D. Nanda – consolou-a, ao notar-lhe o rosto subitamente entristecido.

- É aqui que criou raízes, físicas e afectivas. Depois, o seu filho rapidamente se põe cá a visitá-la. Hoje há bons caminhos.

- Mal saio de casa, cumprimento uma série de pessoas. Estou habituada, sabe?, todos me conhecem e eu conheço toda a gente. Depois, venho até aqui ao café, cumprimento a D. Dora, o Jorge… Venho na esperança de a ver, para conversarmos um bocadinho. Sei que é a esta hora, mais ou menos, que costuma aparecer – disse, com o rosto a iluminar-se.

- Gosto de conversar consigo, minha filha. Como a Teresinha é muito raro… eu não conheço… – continuou, tocando-lhe no seu pontinho fraco.

Tinha por hábito também a tratar por filhinha e isso provocava-lhe um constante estremecimento na alma. Baixou os olhos marejados, para logo de seguida os desviar para um ponto no infinito, a fim de esconder a emoção. O carinho daquela senhora, aliado à solidão que lhe adivinhava, comovia-a e transtornava-a por completo.

Sempre vira a senhora com o mesmo aspecto, o tempo dir-se-ia que não passava por ela, ao ponto de não saber calcular a sua idade. Setenta? Mais? E que importância tinha isso? A partir de certa altura a idade pouco importa, a solidão?!, essa sim! Se ela, bem mais nova, se sentia tão só… Como seria dentro de vinte ou trinta anos? Teria ela uma Teresinha para conversar alguns instantes por dia?

- Entendo o que me diz. Também eu me sinto bem quando as pessoas se dirigem a mim em tom de conhecimento. É tão bom sentir este bairrismo. Depois, acho fácil sorrir e conversar com as pessoas. Somos uma grande família – riu-se, ainda mal recomposta da doce fragilidade que a senhora lhe transmitia.

- Temos de nos encontrar com mais tempo – retomou, voluntariosa – Poderíamos ir até à praia… bem agasalhadinhas, que ainda faz frio…

- Ai Teresinha, à esplanada da Praia Grande… – interrompeu-a a senhora com ar feliz – É tão bonita aquela praia e está-se tão bem naquela esplanada.

- Isso – concordou entusiasmada, enquanto fazia sinal ao Jorge para que recebesse o pagamento.

- Deixe estar minha filha, hoje pago eu.

Olhou por breves instantes aquele rosto bem tratado, ornado de madeixas onduladas, de branco azulado. Não lhe agradava que a sua amiga gastasse dinheiro com ela, mas percebeu que seria indelicado não aceitar.

- Obrigada – disse, enquanto agarrava as suas coisas e se debruçava para depositar dois beijinhos no seu rosto.

- Temos de combinar… - repetiu, apressada.

- Está bem, minha filha. Vá-se embora, antes que perca o comboio.

- Adeus, boa tarde – despediu-se de todos.

Antes que as portas se fechassem, ouviu ainda algumas vozes responderem: “Até amanhãaaaa.”

Já recostada no banco do comboio, entre triste e alegre pensou como gostaria de ser muitas Teresinhas, para que uma pudesse preencher um pouco a solidão da sua amiga, outra fosse trabalhar, outra conversasse com o filho e ainda outra se refugiasse nos seus pequenos mundos, registando tudo o que sentisse. Se mais houvesse… que bom seria.

26 janeiro 2007

Ridícula... Eu?!






Não faço juízos das pessoas pelo seu exterior!

Recordo-me de, em idade jovem, escutar opiniões de amigas minhas sobre o que ficava ou deixava de ficar bem a determinadas pessoas. Referiam-se ao invólucro – roupas, sapatos, cores de cabelos, penteados, estilos. Sempre tive a capacidade de desnudar tudo e todos. Por que raio as pessoas tinham de se vestir e arranjar consoante a idade? Para mim tanto fazia. As minhas amigas olhavam-me incrédulas. Choviam recriminações em forma de acusação e vice-versa. Na realidade eu não reparava nessas coisas. Ficava incomodada quando me perguntavam o parecer sobre a indumentária que fulana de tal usava. Se queriam a minha opinião deveriam ter perguntado mais cedo, antes que a pessoa tivesse desaparecido. Era-me impossível lembrar cores ou feitios quando nem sequer sabia se eram calças, saias, ou fosse o que fosse que vestiam. Decerto nuas não estavam.

Dêem-me um sorriso, um pequenino gesto, talvez uma palavrinha em forma de olhar, assim como quem mergulha em almas. Aí, eu capto! Hoje, continuo a ser, naquele campo, verdadeiramente inútil.

Só que acordei em tristeza tamanha que, ao olhar para o espelho, fui esbofeteada em autocríticas. “- Estás velhota, minha amiga! Cadavérica, enrugada… macilenta. E que teimosia a tua em vestires como as teenagers… E o cabelo?!!!... todo despenteado, madeixas cor-de-laranja!??!... é que nem é cajú… é laranja vivo! Será que o ridículo não se estampou em ti?”

Foi exactamente neste ponto que me lembrei das minhas amigas e das suas críticas acérrimas.

Como estarão elas? Lembrar-se-ão dos seus olhares de esguelha?, da necessidade de desconstruírem?, de falar mal?, de invadirem da pior forma o mundo alheio?, ou encontrar-se-ão hoje no lugar das que criticavam, sem se darem conta (o que dá imenso jeito)?

Levo anos a mudar a minha forma de vestir e de calçar, detesto boutiques, não sigo a moda. As calças de ganga, saias, casaquinhos, T-shirts, casacos, blusões, sapatos, botas, ténis… duram e repetem-se por longos anos, até estoirarem, com grande pena minha, que, quando gosto, uso e uso e uso e fico triste quando já não dá para usar mais. Por isso tenho roupas repetidas, parece que ando sempre com o mesmo. Sou defensora do “vestir lavado” e não do “vestir a moda”. Curioso se torna quando a moda, por ser cíclica, vem ao encontro da minha forma de vestir e calçar. É um ver de senhoras com botas por cima das calças, as mesmas que me diziam: “- Não gosto de te ver assim!”, e o cabelo??? Ui… “Acho que exageras nas tuas madeixas laranjas… são bonitas e até ficam bem com o tom acobreado que tem o teu cabelo, mas…!”.

Hoje de manhã… fui eu que olhei para as madeixas. Gosto delas, muito até! Então, por que raio me preocupo em questionar se serão adequadas à minha idade? E a ganga justa? E o despenteado? Eu que sempre detestei o alinhado, o simétrico, o certinho.

Pergunto-me qual será a cor predominante do meu cabelo. Branco?

Pensamentos do dia: “Espero que as minhas tintas não se esgotem! E que, por ser mulher, não fique careca!... Um dia farei uma plástica!”

14 janeiro 2007

Sem Destino



Foto: minha autoria




Hoje quereria ir à deriva. Agarrar em mim, preparar-me de ténis, mochila às costas, elástico para o cabelo, aparelho de música… manta… uma manta grossa, tipo tapete, para que, nas paragens que fizesse em sítios bonitos e calmos, cheios de chilreios e adivinhação, me deitasse deleitada com tudo o que sentia. Um bom livro para as paragens da escrita… ah, um cadernito e caneta, claro.

Hoje quereria olhar o mar. Agarrar em mim, vestir um camisolão grosso, calçar umas botas, olhar na mochila o meu aparelho de música e os cigarros, rebuscar o cadernito de notas e caneta e ir a uma praia de mar revolto, mas sereno na distância.

Hoje não quereria ir a lado algum, mas gostaria de estar contigo entre risos. Olhar o teu rosto e respirar fundo o sorriso do amor. Agarrar tua mão e caminhar por entrelaçar de dedos. Fugir sabendo que rápido me alcançarias - que não quereria estar muito tempo longe de ti - trepar teu corpo em cavalita, para te abraçar, enquanto em exagerado protesto me segurasses na caminhada.

Hoje, iria a qualquer lado, se nos teus olhos sentisse o quentinho da felicidade!

13 janeiro 2007

Perguntinha



Foto: de minha autoria




O Sol invadiu o meu sono.

Faço cálculos complicados em busca do dia da semana, se falhei alguma coisa enquanto dormia. Hoje é… sábado!!! e neste não trabalho. Revejo a situação. Certinho! Não tenciono abrir os olhos, não queeeeeeeero!, preciso descansar. Vá lá Solinho, só mais um pedacito. Afinal não trabalho… aiiii, grrr.

Vozes alteradas irrompem pelas paredes. Os vizinhos discutem em gritos e choros e acusações e silêncios.

Levanto-me tropegamente triste. Apetece-me dizer-lhes para terem calma, que se amam, olhem as crianças… e o Sol lindo que se apresenta em fim-de-semana? Hein? O mar que se adivinha forte e lindo, pejado de surfistas ansiosos?

Dói-me a cabeça!

Os choros chegam betonados. Choro também, silenciosamente, que não quero que me oiçam. Que raio de forma de acordar.

Mando-me em braços abertos para cima da cama, olhos postos na janela de sótão. Que mundo desajustado!!?!, parece uma roda dentada fora de sítio... Se lhe dessem um pontapezito talvez engrenasse.

Foi aqui que parei em saudades imensas de uma rosa a enfeitar a cesta larguíssima do pequeno-almoço. Foi também aqui que chorei compulsivamente, em enorme luta interior entre o chora e não chora, com o chora a ganhar por largas lágrimas.

Primeiro pensamento “lúcido” do dia: “- Ter saudades de coisas significará termos saudades de nós?”

01 janeiro 2007

Quase Meia-Noite

Foto: De minha autoria

Dou conta de que a minha passagem de ano foi calma. Nada de fortes bateres do coração. Nada de ansiedades, nada de lágrimas. Terá sido a imensa constipação? Ou a idade e os imensos estalos da vida (ui… que dramática) me tornaram mais calma? Logo a mim, que adoro exaltações…

Este ano não aconteceu a despercebida escapadela a um cantinho qualquer para, longe de olhares, em silêncio, gritar o meu desejo: “Felicidadeeeeeee”. Todos os anos o mesmo desejo… “FELICIDADEEEEEEEEEEEEEE”. No cantinho onde me escondo, de rosto e mãos crispadas, como se a força com que cerro as mãos e os olhos me realizassem o único desejo que pretendo – felicidade, enquanto rodeadas de brilhos estrelares as imagens das pessoas que amo desfilam entre as pálpebras e as órbitas, todas elas enfeitadas de sorrisos lindos que me fazem também sorrir.

Nada! Este ano nem triste nem alegre estive… foi normal o meu sentir, sem saudades, sem desejos, sem quereres, sem imaginar o presente, sem querer saber do futuro.

Mas estive bem! Com o meu lindo e adorado filho, que só foi ter com os amigos depois de me dar beijinhos e me desejar um feliz ano novo, e com a minha grande amiga e vizinha e sua querida filha.

Meia dúzia de passos após os 15 minutos da meia-noite, zás, estou em casa. Sem ratinhos, abóboras e com ambos os pés calçados. Serenamente.

Não fui ao meu quintalinho, de cigarro em riste e copo de Asti a borbulhar. Não olhei o Céu, a Lua, as estrelas… não coloquei a minha gasta musiquinha que invade pacientemente o meu cantinho ao ar livre. Não tracei as pernas por cima da mesa verde desbotada, nem me recostei na cadeira plástica… nem sequer deitei a cabeça para trás, como quem aguarda que um ser superior qualquer se lembre de abençoar seu rosto. Nada!!! Nem um suspiro ou um aconchego.

Mas estive bem! Repito, podem acreditar… mesmo bem! Com um ligeiro temor impensado, alguma estranheza de meu rosto não molhar, diria que com uma certa felicidade… pacífica… isso mesmo… uma felicidade pacífica recheada de alguma desconfiança e espanto.

É que nem sequer o portão das minhas ansiedades, que espero emoldure um dia um rosto de príncipe encantado, eu olhei.

Deve ser da medicação, dos anti bióticos, anti histamínicos, anti inflamatórios… com tantos anti devo ter ficado anti Eu. Só pode!

Aguardo o fim das tomas medicamentosas com alguma curiosidade. Imagino-me esbaforida, a correr desenfreada, em saltos a tudo que se interponha entre mim e o meu quintalinho, num corte de meta imaginário, a espalhar cigarros pelo chão húmido de tijoleira, enquanto me apercebo que nem se ouve a música, nem tão pouco tenho cinzeiro e, já que tenho de regressar a casa… um copito de qualquer coisa dava jeito… e as passas, as passas… as famosas passas que podem ser sultanas, ou nortanas, que sempre fui desnorteada, pouco importa… mas rápido Teresa… que, mesmo sendo 4 de Janeiro, é quase meia-noite.

31 dezembro 2006

A Palhacinha


Foto: Minha (tirada pelo amigo Lopez)




Não havia pisado ainda o meu 10º aniversário quando entrei para o ciclo preparatório, onde a cadeira bem lá do fundinho da sala de aula me aguardava. Queria estar bem longe do olhar dos professores e passar despercebida num ensino autoritário, que temia. A minha atenção era extrema e a aprendizagem fazia-se através do medo, curiosidade e necessidade de atafulhar o cérebro com outras coisas que não os traumas de criança infeliz. Tristeza seria, por circunstâncias que não vêm ao caso, a característica que minha alma apresentava no meu corpo de criança.

Vestia bata branca, abotoada atrás, com uma faixa que me apertava a cintura e terminava em laço. Do cabelo comprido sobressaía uma franja puxada para trás, agarrada por um laçarote, que comecei a detestar aos primeiros risos das minhas companheiras, mas não ousei tirar. Fosse pelo ar frágil, pela tristeza que emanava, ou pela forma como me apresentava vestida e penteada, desde logo as minhas colegas pressentiram em mim um ser fácil para as suas brincadeiras, por vezes repletas de crueldade. Mesmo assim, preferia a escola, a estar em casa.

As aulas começavam cedo, ainda o frio da noite não desaparecera e já as filas de rapariguinhas se faziam, junto à parede exterior da sala de aula. O professor chegava, entrava e, de imediato, era seguido pelas alunas, que se sentavam somente após a ordem daquele.

Um dia, eu e uma colega que escolhi criteriosamente, não entrámos. De ouvido colado à porta, aguardava ansiosa que o professor fizesse a chamada. Assim que ouvi o meu nome, abri a porta e entrei, tropeçando em mim mesma, fingindo uma queda que não aconteceu. Atrás de mim a minha colega fazia o seu aparecimento.

O professor, espantado, ouviu as gargalhadas de palhaço que surgiam de uma figura irreconhecível, que se apresentava na sua sala de aula vestida de calções largos cheios de remendos, presos por suspensórios, que a figurinha teimava em esticar e encolher, cabelo despenteado e em parte tapado por um chapéu, camisa desajeitada, enfeitada por uma enorme gravata desapertada e torta, meias às cores e sapatos enormes com grande parte das solas soltas. O disfarce terminava numa carantonha onde os lábios haviam sido tremendamente aumentados, as bochechas avermelhadas, os olhos, rodeados por duas imensas auréolas brancas e as sobrancelhas aumentadas com lápis preto, que apontavam uma para cima e outra para baixo. A terminar, presa com fita adesiva, disfarçada pela pintura, uma bola vermelha, corpo de um gelado qualquer, fazia a vez de nariz.

Foi dessa forma que me apresentei, ao som do meu nome, vestida de palhaço pobre, dizendo um texto que havia preparado e ensaiado com a minha colega que se mascarava de palhaço rico e cuja intervenção foi quase nula. O nervoso que a minha amiga sentiu levou-a a esquecer partes dos nossos ensaios, tendo eu sido obrigada a fazer várias adaptações para que a representação produzisse o efeito pretendido. As gargalhadas soaram atentas a um texto imaginado e, em parte, plagiado por mim. Um texto que orientei e que ainda hoje não entendo onde arranjei coragem para o representar.

Lembro as palmas no final do meu teatrinho, dos passos do professor a aproximarem-se de mim, das suas mãos a erguer-me o rosto à procura de traços conhecidos e do seu sorriso. Lembro ainda a sua voz extasiada: “- Ninguém saia do seu lugar”, de o ver sair quase a correr e regressar com outros professores.

“- Podes voltar a fazer o mesmo?”

A minha apoteose, a primeira grande alegria de criança. A descoberta do momento em que alguém me olhou com admiração e ternura. Não foi orgulho que senti - isso sinto hoje ao relembrar tais momentos – foi agradecimento por terem gostado da minha pecinha de teatro e da minha representação, mas sobretudo por me terem olhado com outros olhos e me darem valor, um valor que eu não sabia existir.

29 dezembro 2006

Mosqueteira de mim





Foto: e Montagem de minha autoria







Volto ao meu mundinho… local de paranóias e sonhos, medos e coragens, partes de mim.

Hoje, em espirros de constipação, purgo-me de um pensamento.

Olho para dentro de mim e vejo um mundo em tons quentes, onde me movo saltitando, de mesa em mesa, espada desembainhada, em estucadas rápidas, enquanto sentada fico, junto a uma lareira acesa e crepitante de fagulhas.
O cheiro a mosto ergue-se e mistura-se com o da comida impregnada de banha. Afogueada, olho a imagem que teima em saltar, sabendo-me eu e sorrio-me.

Sinto a coragem que erradio e fecho os olhos, envolvo num abraço forte e carinhoso os joelhos flectidos por baixo de uma saia imensa e rodada, enquanto neles deposito a cabeça, enfeitada em carrapito, por onde madeixas de cabelo teimam em soltar-se.

Desprendo-me e levanto em saúde uma taça de estanho, a escorrer em vinho. Em cima de uma mesa, a minha figura ouve o brinde, agarra -se a uma corda, suspensa de uma viga de madeira que suporta o tecto da taberna, toma balanço e, em voo, arranca-me a caneca das mãos. Sem se desequilibrar, estaca em cima do balcão, pernas ligeiramente abertas, enfeitadas de calças justas, que escondem parte do seu tecido nas botas que encobrem os joelhos. Ergo a taça que me ofereci e de espada em riste, desdobro-me em várias e grito a vitória, que se recorta em sombra nas paredes encurvadas.

Bebemos o líquido de um trago e sorrimos entre todas. Os calcanhares batem fortes no chão de madeira e a emoção de, mais uma vez, não termos perecido às mãos do vilão ressurge em gargalhadas tristes, mas ainda assim gargalhadas.

As notas de música vibram por entre o calor, voam até mim, levantam-me em enlace de cintura e dobram-me as costas, que endireito ao soltar um som agudo, amargo e vencedor.

Dirijo-me à lareira onde me encontro, afago-me ternamente o rosto corado, envolto em lágrimas de desilusão, brilhantes de luz de tochas e juro a mim mesma sempre os vencer, que vilão só de passagem entra na minha vida e dela sairá sem marcas deixar. Recordo as promessas que sempre me fiz, envoltas em força, jamais em resignação.

Voam chapéus de penas enfeitados, soltam-se as melenas de calor suadas, enchem-se novas taças de amizade infindável. Venha a música, os sonhos, os delírios infantis… Expectante aguardo o real simples, isento de maldade. Até lá, cruzam-se as espadas em tinir de aço de coragem e, em novo brinde, alto e bom som, em uníssono, alimentamos a eterna jura de “uma por todas e todas por uma!”

Pode ser que só eu entenda, mas afinal este é o meu mundinho, onde alugo nos relatos feitos um espaço aos outros, limitado ou ilimitado, consoante a importância que lhes dou e que me dão.

É que o meu mundinho é lindo, não só por ser meu, mas por nele depositar sentimentos e anseios, memórias boas e más, uma miscelânea de descobertas que tomam formas ao sabor de uma pena imaginária. Tudo nele é verdadeiro, o que de mais verdadeiro exista, mesmo que de dúvidas, alegrias, decepções e sonhos feito.

03 dezembro 2006

A Árvore



Foto: minha autoria


Lembro-me que um dia, andava ainda no liceu, escrevi uma composição sobre uma árvore. A dita cuja albergava por debaixo dos seus ramos e folhedo uma criança de rua, cheia de frio e desconhecedora de carinho. Não me lembro por que artes, mas o certo é que a árvore, dotada de uma alma imensa, se dobrou tanto no intuito de proteger aquele filho adoptivo, que acabou por rasgar a terra e dela fazer brotar as suas raízes, perecendo. Claro está que morreu a árvore, mas a criança salvou-se.

Na minha ingenuidade de criança, desprovida de carinho, apelei ao impossível. Endeusei uma árvore, ao dar-lhe a capacidade de sofrer até à morte, na esperança de salvar um ser humano; personifiquei o frio conferindo-lhe todos os males; transpus da forma mais sucinta a criança que eu era, ainda que na altura não tivesse percebido isso. Uma criança que sabia de cor o sabor do sofrimento, a quem era vedado o direito ao amor. Pelo meio ficou a ternura maternal da árvore, a voz quente que a acalmou até ao sono sossegado, o acreditar da escritora criança de que os milagres podem acontecer… que um dia também ela seria alvo de um.

Essa criança manteve-se bem dentro de mim - creio não ser segredo para todos os que verdadeiramente me conhecem - até aos dias de hoje. Curiosamente não é uma criança que pedinche, antes, parece ser uma criança que encontrou o amor em si própria, mas que tem a necessidade de se manter pequenina, aninhada nos braços do meu coração. De vez em quando estende os deditos e acaricia as minhas dores até ao sossego, tal qual a árvore da minha história.

E eu faço tudo para proteger aquela criança, tudo para lhe demonstrar que a amo, absolutamente tudo para que perceba que dependo dela e ela de mim, tudo para a ver em paz, a sorrir e, se possível, mesmo a rir em frutos de gargalhadas.

Que atire a primeira pedra, quem se ache mais normal, mas antes olhe-se bem para dentro e procure a coragem de se conhecer e dar a conhecer, porque eu e ela, sem medos, assumimos ser ambas crianças… ambas árvores de nós próprias.

24 novembro 2006

Onde andas amiguinho?


Foto: minha autoria



As pessoas passam em correria de chegar cedo. Cedo para quê? Olho o chão. Quisera vê-lo fugir debaixo dos pés, mas ele é fixo e obriga-me a andar. Todos correm para a monotonia dos lares, ao qual chegam por atropelos e cotoveladas, más educações e egoísmos. Nem um com licença, nem um sorriso inocente de promessa, nada.

A protecção civil…. Blá blá blá. Só sinto o quente da chuva e gosto. Não quero saber se há comboios, barcos, metro, se a linha de comboio se transformou em rio. É tão divertido o inesperado… Sigo em passos vagarosos, contrastantes dos outros que por mim passam. Aquele corre… logo outros o seguem em correria. Não sabem o que é andar devagarinho? Que se danem os transportes, que se danem as horas… estou de saída para o fim-de-semana. Permitam-me pisar em sorriso o som que sai dos meus headphones.

Eis que chega o comboio. Sei de cor o que me aguarda. Deixo entrar os apressados, que se sentam. Homens robustos, de cara virada, fingem não ver as senhoras que, de pé e desiludidos olhos, imploram por um lugar vago. Parece o jogo da cadeira. Sorrio… a música… essa tenho-a eu e não tenciono desligar o aparelhinho que seguro por entre os dedos.

A busca de lugar termina. Já posso avançar. Permito-me caminhar até à porta de ligação das carruagens. As caras tomaram a devida direcção e imagino o olhar dos patetas. Encosto-me. Um qualquer olha-me descaradamente. Evito o olhar… Não quero estragar o meu som, nem mesmo por uns olhos bonitos como os dele.

As narinas abrem-se em busca do perfume dos meus pulsos… tão bom. Hummm… O som invade-me e evade-me… adoro. Fecho os olhos e deixo-me guiar em voo não contido. Perde-se no ar o som não dito de um simples obrigado.

Sonho o que não vejo… Que saudade sinto de ti meu pequenino Alessandro.

31 outubro 2006

Revoltinha




Foto: Minha autoria





Num país em que vivemos sem saber como nem por quanto tempo, urge pensarmos no nosso umbigo através do dos outros. Mãos limpas e consciência ainda mais alva cometem-se atrocidades sem que a legislação se adeqúe. Não existe punição à cobardia e ao egoísmo e as almofadas fofas amparam cérebros com casca em caspa.

Em vão se torna o demorado pedido de explicação, ganha a cadeira do topo, que não se parte por ser tão mole (ensinamentos do passado). Revertem-se os dogmas, afiam-se os provérbios e da miscelânea sai o Chico esperto, que de esperto nada tem.

Mais tarde ou mais cedo todos caem, mas antes levam os inocentes que, de tanto se não defenderem, passam a culpados.

Por aqui eu, inocente culpada que gosto mesmo é de música e letras e amizades e vidas simples e que, de tanto gostar, me reduzo a inutilidades e vazia de tudo me torno, esgoto o pensamento em irremediáveis situações e puno-me de incapacidades.
É que nem a voz me sai.

Mas a minha estrelinha ainda brilha, o meu mar ruge em espuma inofensiva e a minha noite rompe-se em silêncios cheios de cumplicidade. O radioso amanhã virá, como tudo o que é bom faz-se esperar, mas virá…

Até lá treinarei o meu grito.

26 outubro 2006

A Dança




A noite faz-se lenta ao lado da presença masculina, seu amado.

Recosta-se no banco e pensa como é bom deixar-se ir assim, sem saber para onde, ao sabor das suas ideias, das suas surpresas. Precisa daquele sossego, do clima amoroso que respira deliciada, do seu querer, do seu desejo.

O carro segue em pequenos ziguezagues evitando as desagradáveis lombas que se encontram interrompidas aqui e além, até que pára, meio encavalitado, no passeio. Adivinha o que irá suceder e ainda assim o seu riso explode de satisfação ao ver a figura dele do lado de fora, a abrir-lhe a porta, enquanto lhe estende a mão desocupada. Sai saltitando e aceita o enlace do seu corpo. A música estende-se até eles e dançam-na, num aperto suave. Mal a inocente dança termina, apoia a cabeça no seu peito e aperta-se carinhosamente contra ele, em agradecimento de tanta felicidade.

Ambos, no silêncio do afago, nas perguntas de promessa, no desespero de certezas do infindo, no amor possível e diferente, não querem deixar de se surpreender. As noites sarapintadas de brilhantes estrelas e a chuva, permitida por entre alegres e fugidas corridas, serão cúmplices eternas daquele sentimento lindo, de juras desnecessárias, nunca pronunciadas.

Os dedos em ternura descem pelo rosto dele, interrompidos pela doçura do seu olhar. Suavemente, em bicos de pés, beija-o e é beijada. Em rodopio se vê, levantada pelos braços fortes do seu amado e ri criança que se sente.

Dentro do carro, de corações exaltados, relatam-se em felicidade de amantes, numa viagem onde já nenhum dos dois imagina qual o destino.

22 outubro 2006

Um Dia Destes "Não Choverá"

Foto: Minha autoria



Acabo de deixar o meu filho no seu emprego. Volto devagar, penso na sua vida e o medo avoluma-se.

A chuva bate no pára-brisas e o vento abana a carroçaria. Não ligo a música, não quero sons que não o da chuva e do vento. Apetece-me viajar sem rumo, mas o carro segue os trilhos conhecidos de regresso a casa. Percebo que a ela me dirijo e nela ficarei a maior parte desta tarde em mau tempo.

Penso nas amizades que tenho… não quero estar com alguém e, no entanto, imagino que as minhas palavras terão eco algures, mas onde? Não gosto de maçar, não gosto de desabafar, não gosto de estorvar, não gosto de pedir…. Tanta coisa que não gosto de transmitir aos outros, com medo de me acharem chata, com medo de os ver afastar enfadados, com medo de os entristecer, com medo de os incomodar… Sei que um amigo aguenta, mas eu gosto de estar com eles de uma forma diferente e, por isso, à pergunta que me fazem de “tudo bem?”, eu respondo “sim!”, quando a minha alma, em dor de “não!” se debate. “Tudo bem!”, quando a minha voz se cala em desordem por não gritar “tudo mal!”.

Sei que ninguém resolverá os meus problemas para quê então transmiti-los?

Pelo caminho dou passagem a um outro qualquer e vejo a sua mão erguida em agradecimento. Levanto a minha também. Acabámos de comunicar. Fragilizo-me toda. “Hei! Tou mal, sabes?, Queres falar um pouco? Queres fazer-me sorrir? Queres ir beber um copo, fumar um cigarro? Ser um amigo? Abraçar-me o sono em festas pelos cabelos enquanto sussurras “-Chiuuuu tudo bem…. Está tudo bem!” Queres? Só para adormecer em sorriso, pode ser? Preciso tanto sorrir! Necessito tanto que alguém me ampare e sossegue o sono…”

O carro dele afasta-se veloz, já não o vejo, já não o lembro. Olho a serra que mal se esconde nas nuvens e imagino o riso da subida. Amiga minha, querida do meu coração, reza por mim e dá-me forças… foste sempre tão corajosa. Que falta me fazes. Estás bem?

A chuva e o vento fustigam-me as emoções que derrapam pelo meu rosto. Quando subirei de novo a serra na tua companhia? Quando nos deitaremos outra vez nas enormes pedras que espreitam o arvoredo em baixo? Quando falaremos em riso desenfreado? Quando? Amiga… querida amiga... lá do Céu, se tiveres um pouquinho de tempo, olha por mim. Ando um pouquinho perdida e já não rio com tanta facilidade, mas lembro-me de ti e continuo a amar-te. Que saudades tenho de ti, que saudades tenho dos nossos sonhos.

O meu filho sairá depois das 22h. A ele volta o meu pensamento a ele regressam os meus cuidados. Um dia o meu sorriso será verdadeiramente largo, quando no seu rosto querido um verdadeiro sorriso se fizer sentir.

09 outubro 2006

Pensamentos

Foto: de minha autoria




Viu-se encostada a uma ombreira, depois sentada no chão, por último a tentar localizar-se no espaço sideral. Olhou o teto da cozinha onde uma pequena aranha se deslocava. Sorriu. Noutros tempos o aspirador teria entrado em acção. Naquele momento… nem um sintoma de taquicardia se fez sentir, nem um gritinho abafado de “ai meu Deus, meu Deus”.

A música que colocara não fazia efeito e os picos de auto estima tocavam-se nos extremos.

O processo estava a ser doloroso. A capacidade de auto análise foi testada até às últimas e nem mesmo assim conseguiu perceber o que sentia, muito menos o que fazer.

Os meandros neurónicos eram mais que muitos e as sinapses nem sempre estabeleciam ligações racionais, faziam lembrar a confusão da bolsa num dia de crash.

Colocou o rosto entre as mãos. Tentou chorar… nada. Um vazio invadiu-a provocando-lhe náuseas. Lembrou-se da miséria, das inúmeras desgraças mundiais, do ouro do Vaticano, da ONU, dos EUA, do seu quintalinho… nada.

Olhou os ténis All Star que calçava e que tanto gostava e indagou-se se teriam sido made in Indonésia ou made in China. Para que dar-se ao trabalho de verificar se já os tinha calçados? Uma certeza chegou… rápida… a felicidade é feita de esquecimentos e de ignorâncias.

Levantou-se do chão da cozinha e barrou uma fatia de pão com doce de tomate. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”… que raio, como terá conseguido Lavoisier dissociar os pensamentos da massa das matérias? Os átomos do pensamento não seriam matéria? Só porque impossíveis de pesar? Ora, tenham dó...

Sentou-se de novo no chão junto da bancada da cozinha e trincou de forma mecânica o pão. A música misturou-se ao sabor do doce. Comeu tudinho tudinho, excepto a misturada de pensamentos. Tal como a aranha… ficaria para depois ou talvez não.

A custo levantou-se, abriu a porta do quintal e saiu para a noite. As suas estrelinhas e a Lua aguardavam-na.

06 outubro 2006

O Amor É Lindo!


Toca o despertador do lado esquerdo. Enquanto se esconde por baixo dos lençóis, uma das mãos tateia até encontrar o milagroso botão que cala por mais sete minutos a música do despertar e, de novo, adormece. Acorda com o ressonar do seu amado. É um ressonar profundo, intervalado de pequenas saídas de ar que lhe atinge o lóbulo da orelha arrepiando-a.

Antes dos desejados 7 minutos de sono, toca o despertador do lado direito, aquele que não lhe pertence... esse mesmo, o do seu amor querido e lindo. O que toca de forma estridente, o embirrante que várias vezes lhe fez nascer instintos de destruição – quantas vezes imaginou martelos, fisgas, até pistolas a dar cabo dele... do despertador, não do seu querido e lindo amor. Por falar dele... não acordou, não fez resvalar a sua linda mão até ao miserável, não o parou.

Ainda debaixo dos lençóis remexe-se. A sua perna toca a do companheiro.
“- Amor... quido... tá na hora...”.

Lindos grunhidos ouvem-se.

“- Eu sei! Tenho despertador... só mais uns minutinhos.” - e trava o despertador.

Agarra-se ao torpor do sono, e consegue, quer dizer... ele consegue... adormecer.

Toca de novo o do lado esquerdo. Raciocínio rápido tem 7... não, 3,5 minutos até o dele tocar... grrrrr.

Na relação do casal o egoísmo não tem lugar e a preocupação pelo outro está sempre presente...

“- Amooooor já tocou umas dez vezes... Não estás atrasado?”.

“- Não! E tu?”

"- Claro que estou" - pensa, mas... só mais uns minutinhos. E lá vai tateando tudo o que se encontra na mesa de cabeceira, até encontrar o despertador.

As mãos agarram firmemente o lençol e o edredão que ele graciosamente levou consigo nas vezes em que rodou para o lado direito. Puxa com força e... nada. O frio espalha-se rapidamente e, geladinha, desiste!

Arrasta-se até à casa-de-banho.

“- Onde vais amor?”.

Estaca, incrédula. "- Vou até ao bailarico da esquina" - pensa dizer e ao invés disso:

“- Tá na hora fofito. Vou tomar banhito.”

“- Acorda-me a seguir, amor. Tá?” – diz ele já a dormir.

“- Tá amorzito.” – responde ela. Grrrrr, mas para que raio quer ele o despertador?

Ao chegar à fria divisão dos reparos físicos, olha no espelho a imagem disforme e de pele amarrotada. Tenta compor os cabelos que teimam em ficar desgrenhados, estala os ossos que ainda dormem e arrepiada coloca um dedinho na água que corre do chuveiro, até que esta aqueça e a ajude a entrar aos poucos no mundo das lavagens matinais. O cérebro ainda está embrotecido e as ideias misturam-se entre o que fez no dia anterior e o que fará após o pequeno almoço.

Pequeno almoço.... hummm, torradinhas e leitinho com café, ao som da música suave, pequeno almoço que ele lhe fará com carinho... hummm, que bom. Esboça o seu primeiro sorriso da manhã.

O relógio acusa o atraso, obrigando-a a poupar na água do banho. Espalha velozmente o creme pelo rosto e a sua imagem começa o tocar o limite do aceitável. Ó larelas, está quase pronta para o mundo... quase... quase.

“- Amor!?!?!?!? Levanta, tá na hora.” – diz, enquanto o beija, o acaricia, o abana.

Ele levanta o tronco, vira a cabeça na direcção do relógio, tenta localizar-se no tempo... destapa-se num ápice.

“- Porque não me acordaste? Já estou atrasado...” – diz ele perante o ar incrédulo dela, quase se estampando contra a parede, após tropeçar numa dobra do edredão.

Vê-o correr para a casa-de-banho, ouve-o queixar-se do “nevoeiro” (rasto do banho dela) que teima em colar-se ao espelho não o deixando ver a barba.

Resmunga após um golpe na face, coloca papel higiénico no mesmo e lava os dentes.

“- Xá Extáx ...??” fala por entre fios de pasta dentífrica, escova de dentes e água.

Fora da divisão onde ele se encontra, ela abana a cabeça e, em esgar cómico, sem som, repete a pergunta que acabou de ouvir, terminando num “daaaaaaa”.

“- Estou sim amor” – responde.

“- Eras uma quida se arranjasses o pequeno almoço.”- diz em tom mimado e, sem esperar os protestos dela, acrescenta: “- Tou quase pronto... vou de seguida...”

Dispara a almofada para cima da cama que acaba de compor, apanha a roupa que ele, SEM QUERER, deixou cair em vários sítios do chão, dobra o jornal, apanha o comando da televisão... tudo isto enquanto o seu sonho de pequeno almoço se desfaz.

Agarra no casaco e mala e brincos e anéis, dispara o spray do perfume na direcção do pescoço e corre para a cozinha.

Prepara o repasto e aguenta a mão dele no penteado que lhe deu tanto trabalho a fazer.

“- Hum... estou esfomeado” – diz enquanto come a primeira torradinha, aquela que ela acabara de barrar e se imaginara a trincar.

Salivando, coloca nova fatia na torradeira e prepara-se para a defender com unhas e dentes.

“- Dormiste bem amorzito?” – pergunta ele.

De largo sorriso, sem certezas, responde que sim e ambos saem para mais um dia de trabalho.

Vê-o afastar-se e prende o olhar na sua figura linda. Sente saudades dele, enquanto corre a comprar a revista que traz as últimas novidades sobre como acabar com a maldita celulite.

Rebobinemos o filme…

Toca o despertador do lado direito... “- O telefone está a tocar.” – pensa ele – “porque será que ela não atende?”.

“- Amor... quido... tá na hora...”

“- Upss... afinal é o meu despertador” – pensa – travando-o.

Durante a acção de travar o despertador e de lhe dirigir algumas palavras, as quais não recorda, adormece.

Acorda com a presença dela já pronta. Aposta que já é tarde e nem o chamou, levanta-se meio irritado. Porque razão demorará ela tanto tempo na casa-de-banho, se nem a barba tem de fazer? E que mania tem de mandar com a roupa da cama toda para o seu lado... resmunga, ao tropeçar no edredão.

Mas é claro... outra coisa não seria de esperar, não se vê um boi à frente dos olhos, só falta aparecer D. Sebastião por entre tamanho nevoeiro. Apostaria o campeonato português de futebol em como ela usou a sua lâmina de barbear, resmunga enquanto se corta. Tanto dinheiro na esteticista e ele é que sofre... grrr

“- Xá Extáx ...??” – pergunta-lhe, por entre fios de pasta dentífrica, escova de dentes e água.

“- Eras uma quida se arranjasses o pequeno almoço.”- diz em tom mimado - “- Tou quase pronto... vou de seguida...”

Mal ouve a sua resposta por entre o delicioso barulho da água do banho no seu corpo.

Já pronto, segue em direcção ao cheiro agradável de uma torradinha que, avidamente agarra, não sem antes acariciar os cabelos da sua companheira.

“- Hum... estou esfomeado” – diz enquanto a devora.

“- Dormiste bem amorzito?” – pergunta.

Pensa no trabalho que o aguarda e nem ouve a resposta.

Saem. Sente-a afastar-se e apressa o passo em direcção à banca de jornais, onde lê as parangonas sobre os grandes clubes do futebol português.

Sente saudades das idas ao Estádio José Alvalade, onde, por entre cervejas e verdadeiro calão português, na companhia dos seus grandes amigalhaços, vibrava nas ondas futebolísticas os grandes desafios do seu clube, dissolvendo nos protestos e gargalhadas roucas todas as suas preocupações.

Concluo:

Tento ter presente que a felicidade pode e deve ser sempre alimentada. A rabugice de teimosias e feitios dá lugar à pronta discussão, sempre mais fácil que o apaziguar da calma e tolerância. Sendo inteligente (escusado será rirem-se desta absoluta e irrefutável certeza) percebo que o vazio se instala, pequenas lacunas tornam-se abismos e o olhar cândido e admirativo torna-se frio e distante. Ah pois é... não tenham dúvida alguma que o amor morre por dá cá aquela palha. Morre, morre! Pior é que se torna difícil fazer ressuscitar essa coisa maravilhosa que tanto desejamos.

Há lá sensação mais bela que a lânguida felicidade do desejo de partilhar os nossos mundos com alguém que nos ama e que amamos? Pela minha parte… estou disposta a vociferar contra as injustiças cometidas pelos árbitros contra o Sporting, disposta mesmo a fazer uma torcidita pelo mesmo (conquanto não jogue contra o meu clube – SLB… SLB…SLB… SLB SLB SLB... glorioso ... desculpem… entusiasmei-me, hihi). Só não sei se ele está disposto a ir à minha esteticista…

30 setembro 2006

Uma Prece





Uma enorme frustração assalta-me, mais que nunca a minha pequenez vem ao cimo e o presente grita-me o quanto sou banal. Nada fiz de interessante na vida, deixei-a passar, agarrando-a tenuemente. As lutas que travei deixaram de fazer sentido e interrogo-me se as escolhas foram as melhores. Não passo de um corpo igual a tantos outros, que morrerá sem deixar marcas. Qual o significado da vida então? Para que raio nasci? Que postura devo ou deveria ter? Qual a importância de trabalhar dia após dia, ano após ano, se o resultado se expressa unicamente no levantar de cabeça, orgulhosamente, enquanto afirmo que não devo nada a alguém? E a casa, que demora trinta anos a pagar? Os electrodomésticos que paguei em dolorosas prestações? As viagens que somente sonhei fazer? E o apertar do cinto em momentos de crise? E as noites mal dormidas a pensar que o trabalho pode acabar? E o envelhecer sem futuro? O contínuo contar de “tostões”? As incessantes e conhecidas contas depositadas na caixa de correio?...

Tudo se aguenta, quase sem questionar, até que um dia um filho, que amo mais que à própria vida, me abana e de chofre me faz sentir vazia. Se por um lado desejo que estude e trabalhe e lute pela vida, por outro oiço-o em calmo desespero afirmar que nada faz sentido. E não sei como lhe definir a felicidade, como lhe dar as forças que já me parecem despropositadas. Engulo em seco o meu mundo ridículo e balbucio meia dúzia de palavras desacreditadas.

A dor apanha-me desprevenida e mal fixo os olhos do meu filho. Não tendo a que me agarrar, o pavor invade-me e, com voz disfarçada de certezas, tento dar-lhe o alento que foge de mim.

Os alicerces caem e as célebres frases de que “a vida é mesmo assim, blá blá blá… há que lutar… blá blá blá… a felicidade também se constrói… tudo passa, um dia vais ver… outros tantos blás…” soam a ridículo, soam-me a falhanço, a cobardia, a falta de imaginação, a impotências diversas.

Não sei como o ajudar e temo a sua rebeldia, as suas convicções. Olho o futuro sem alegria e sem esperança e intimamente dou-lhe razão, mas não posso revoltá-lo mais e continuo a dizer frases sem verdadeiro sentido, enquanto o agarro em abraço e desejo que sinta este amor, que não lhe basta.

Olho o meu filho com um amor desesperado e sinto que falhei, mas não sei onde. A ferida abre cada vez mais e percebo que a vida continua nele e que não consegui estruturá-lo, não consegui fazê-lo feliz. E dói, dói quase até à loucura, decididamente dói até à raiva de tudo e todos. E já nada basta, dentro de mim abriu-se o irremediável, e percebo que o descanso não existe e que na vez dele a culpa toma cada vez mais forma.

Seria tão mais fácil se ele fosse como eu… pequenina, banal, inserida nas ridículas felicidades que arranjo por tudo e por nada. No fundo desejo que ele se insira na pequenez do mundo, na mesquinhez das sociedades... que se torne intocável.

As forças que me restam ameaçam-me, sinto-as fugir e desnorteio-me. Sempre tive forças para lutar contra tudo e contra todos, mas jamais soube como lidar com os problemas dos outros. Eis chegada a vez do meu filho, a pessoa que mais amo e não sei o que dizer, não sei o que fazer.

Tenho tanto, tanto medo que dou comigo, mais uma vez, a levantar as mãos em prece e em choros.

“Imploro a um Deus - que sei não existir - que me dê todas as amarguras, todos os sofrimentos, mas torne o meu filho feliz, por favor, por favor”.

12 setembro 2006

As Viagens Que Sempre Farei

Música... Paraíso de mim. Com que leveza me transportas, com que doçura me amparas.





Santana (que assisti por duas vezes ao vivo) e por que não Steve Tyler?



Uma das minhas músicas preferidas - A Remark You Made, de Weather Report, com o inconfundível som de Wayne Shorter (sax tenor), Joe Zawinnul (teclas) e Jaco Pastorius (baixo).



Paco de Lucia, mais uma vez (sempre).



Meu querido Toots Thielemans que tive a honra de ver ao vivo, com alguém muito especial.



The last but not the least... Genesis, ainda com Peter Gabriel.

Mundo meu, mundo meu... I've got to get in to get out...

11 setembro 2006

Give Me a Litle Respect


Foto: minha



O meu mundo é redondo, às voltas ando e sempre volto ao mesmo.

Tudo uma questão de tempo… digo eu!, porque não sei o que dizer mais. É assim como o enfatuado english people, que fala do tempo porque mais nada tem para dizer (ou não quer).

É tudo uma questão de tempo!, repito e sei que é verdade, e logo a alegria subirá e pulo e rio às bandeiras despregadas. Uma questão de tempo!, sei que já o disse e depois?, faço do meu blog o que bem entender. Leia-me quem quiser, senão mude de blog.

Diz-se que se aprende com a experiência. Hoje estou do contra e ninguém me contrarie! Sou capaz até de morder quem o fizer. EU desaprendo! Desaprendo e desprendo-me. E depois?, que têm a ver com isto? Nada, mesmo nada meus amigos. Voltem pois para o vosso mundo, onde se sentem desconfortavelmente bem. Não deixem que eu atrapalhe, não me deixem entrar, expulsem-me, que eu volto desassossegada, mas agarro o primeiro trem do meu pensamento e canto de braços abertos e invoco um Deus (só meu), que me agarra pela pontinha dos dedos e me faz girar ao som da música e me leva com ele deixando-me transportar a minha mochilita às costas, onde levo os meus sentimentos para longe para que voem também.

Rodopio até o suor se estampar pelo corpo, grito que nem uma doida, faço os cabelos voar e estamparem-se no meu rosto e estou-me a borrifar se isto não é normal, se caio, se choro, se o raio que me parta.

Enquanto tiver um pequenino sopro a invadir-me o peito, voarei… ainda que seja em voo picado, que a minha amputada alma não tem pés, mas asas enormes e jurei a mim mesma que baterão sempre, por entre vales e montanhas, tocarão o Sol e a Lua, até esse sopro deixar de existir e eu me estatelar, já sem dor e sem medos.

Por isso, e talvez não, give me a litle respect.



P.S. – Não me dedico à bebida, nem tão pouco a drogas, tenho-me apenas dedicado ao ser humano e com ele apanhado grandes ressacas.

02 setembro 2006

Tudo Eu

Foto: minha



Levanto o rosto e imagino-me de olhos esbugalhados a olhar as céleres paisagens, feias, pejadas de prédios despersonalizados.

A pressão nas órbitas dá-me a conhecer o pronto choro. Não quero! Nem que estivesse só no comboio onde viajo. Não quero!!!!!

Sinto os músculos do rosto a contrair, o olhar a endurecer, os lábios a apertarem-se, enquanto mordo a língua, provocando a abertura das narinas e a contracção do diafragma onde travo o ar que inspiro.

“- És tu!”

Oiço-me gritar, dentro de mim. Acuso-me de um ápice, sem dúvidas. Não existe gozo na acusação apenas o estatelar de uma sentença, qual sina a que não se consegue fugir.

“- És tu!”

Resmungo ainda, como se dissesse “é sempre a mesma porcaria, sempre! E agora lá tenho eu de aparecer, munida da mala das minhas orgulhosas forças a safar-me da queda… blá blá blá”.

Severa – como um general ríspido, cheio de nove horas e manias - disfarço a ilimitada bondade e compaixão e, em meus invisíveis braços, acolho a minha pessoa, mais fraca, menos corajosa.

Antes que escorregue pelas estreitas linhas do inconformismo e da “desgraçadinha do gamanço”, amparo-me, sacudo-me, grito-me e seco as lágrimas que não chego a chorar.

Está um dia tão bonito!

15 agosto 2006

Aluga-se Alma

Foto de: Bia





Apetece-me telefonar a todos os amigos, dizer-lhes que de novo estou sozinha, que não tenho jeito para me relacionar. Explicar-lhes, sem me queixar, que estou em ressaca de dor, q.b., que nem sei o que dói e que me estou pouco lixando se a dor teima em ficar. Vou domando-a, não lhe permito que suba mais alto que os meus sonhos, os miseráveis sonhos que, sendo meus, são lindos, mas não os sei explicar e eles teimam em não se realizar.

Dizer-lhes que não sei muito bem por que choro. Se pelo silêncio do que não precisava ser dito, se pela solidão de estar mesmo só, se pelo que não tive e nem mesmo sei o que era.

Contar-lhes que o meu choro é manso, mais parece uma tabuleta onde a água das chuvas e o Sol se encarregaram de apagar os seus dizeres e que desaparecerá com o tempo, apodrecida, sem ser notada.

Entrar em conversas filosóficas sobre o amor, as relações a dois, a vida, a felicidade, essas malditas coisas tão relativas, fasquias sempre deslocadas. Entre copos rir saudades de tocares de mãos e de supostos olhares cúmplices, entre fumos de cigarros deixar o riso e lembrar que me desconheço.

Dizer-lhes que a ferida foi feita por mim, por não saber adaptar-me, que as peças do puzzle mais uma vez estavam erradas e que os cortes feitos não as transformaram em verdadeiras. Explicar-lhes os defeitos que me sobram, como deixo de ser dócil se me sinto magoada, que entre o esclarecer e o explicar se perde tanta coisa que as palavras deixam de fazer sentido, se acumulam amarfanhadas, inúteis que são do inexplicável.

Falar-lhes para me ouvir, me discutir, me saber, me descobrir, me espantar.

Desatar a correr, levando o choro para longe… agora não, agora não, agora não… subir o montanhoso sufoco, deitar-me no seu topo e expulsar a dor aos gritos, com raiva, deixar o desespero sair devagarinho, com medo de o acordar.

Colocar às costas a mochila da descoberta, agarrar a minha alma que, entre ralhos e festinhas, teima disparatar críticas e falsos avisos.

Apetece-me telefonar a todos os amigos, mas não o faço, porque nada há a dizer.

24 julho 2006

A Noite

Foto: de minha autoria


Estava uma linda noite, rasgada pela luminosidade ténue dos candeeiros, carregada de restícios laranjas de Sol que se deitou, dourada do brilho das estrelas, azul de um mar que tem rebentos na areia húmida, prateada de Lua, amarelo brilhante de areia seca de praia. Tinha uma mistura de cores deslumbrante. Só o negro, que por si só é triste, parecia vir do seu interior, do desespero do seu fraco sentir, da sua figura desengonçada.

Olhava as pedras, enquanto caminhava… uma, duas… O barulho do mar, calmo e belo, indicava-lhe o caminho, rompendo a noite longa, só.

A paz não chegava ao seu ser, mas a calmaria dessa mesma noite e local embriagava-a de tal forma que adormecia os desesperados sentidos.

Horas, minutos tudo se confundia. Aos poucos a tristeza que a condenava, que a corroía bem fundo, em desânimo inexplicável, não lhe deu mais tréguas e venceu todas as sensações bonitas.

Nada de certezas, nada de motivos, uma carrada de nadas no seu total sentido de vazio.

Com medo, reiniciou o andar, a custo, coxeando, por não sabia onde, mas a noite e o murmúrio do mar, irreais, qual cantar de sereia, chamaram-na baixinho, docemente… vemmmmmmmm vemmmmmmm

Perdeu-se no mundo de todas aquelas sensações, em tentativas de evasão. O que pensava? Nada, ou talvez tudo…

Viu-se no cimo de uma escarpa, em contra luz. A sua sombra recortada no solo bonito, como a noite, chamava-a carinhosamente. Quando se atirou o seu corpo continuou no mesmo sítio, parado, pensando no mesmo nada e no mesmo tudo, assistindo ao bonito da noite linda, de cores deslumbrantes, misturadas, ouvindo o silêncio do rebentar das ondas, pressentindo uma paz que acabou por encontrar, engolida pela noite, pelo mar.

Esqueceu a maldade, as dores, tudo o que a desesperava, todo o seu eu.

Perdeu-se! Fundiu-se no espaço, no vento quente e aconchegante, em voo picado, imaginando as estrelas, com sorriso aberto e calmo.

A morte, igual à noite linda, amparou-a na queda e docemente pousou-a nos rochedos.

De manhã, um pescador encontrou-a e agarrando-a pelas asas caminhou até ao lixo.

06 julho 2006

Mundial do Nosso Descontentamento


Foi um NÃÂÂÂÂÂOOO rouco que gritei enquanto as minhas mãos escorregaram da cabeça até à nuca, num gesto em tudo idêntico ao de Figo. Também eu senti frustração do golo não acontecido. Aquele golo era meu, era de Figo, era de toda uma equipa magnífica, era de todos os portugueses e apoiantes. Era um golo merecido pelo esforço e entrega, o ressurgimento do orgulho de se ser português, o esquecimento momentâneo de todas as mágoas e cansaços, o motivo da aglomeração popular em volta dos muitos televisores espalhados pelo país, onde a ansiedade se retratou em forma de muitas bejecas e tremoços, alvoroços e desacatos, alegrias e encontros de amigos, onde até o mais pessimista deixou escapar um fiozinho de esperança na vitória.

Quais dançarinos, os nossos surgiram em campo e trocaram o esférico em passos de dança pensada. Aparentemente calmos, esgotaram as forças até ao último segundo. Vi o Miguel, à beira de um colapso, sair triste como pedindo desculpas aos colegas pela impossibilidade de continuar em jogo, assisti à altivez do puto Ronaldo resistir aos apupos, entregando-se sem se esfrangalhar na tristeza do anti desportivismo. Percebi a ânsia de Maniche e dos restantes colegas em jogar e vencer. Creio que estávamos preparados para tudo, menos para a derrota imerecida.

Desliguei a televisão mal o apito final se fez ouvir. Não quis ver o desânimo e as lágrimas dos nossos, muito menos a alegria da equipa francesa.

Hoje sinto-me triste por não termos ganho, raivosa por colocar “ses” na imutável derrota. Se o Ricardo se mandasse um nadinha mais cedo… seria mais uma milagrosa defesa; se o Ricardo Carvalho tivesse tirado o pé do caminho de Henry… poderia não ser golo e, decerto, não seria penalty; se o terrível Zidane não fosse tão certeiro… a dança continuaria na segunda parte, sem pressões; se o Pauleta fosse um armário igual a Thuram ou a Gallas… poderia ter-lhes feito frente e escapado das suas garras ou, se Scolari tivesse permitido Nuno Gomes dançar com Figo e Ronaldo… a elasticidade e leveza daquele poderia ter feito toda a diferença; se o nosso capitão tem cabeceado ligeiramente mais baixo… o empate seria o golpe final para os estronços dos amedrontados e pouco éticos gauleses.

A meu ver Domenech, desrespeitou a ética. O fuinha foi tão odioso quanto despropositadamente irónico. Acusou os nossos jogadores de simular faltas. Antes do encontro, havia sido esse o repetido discurso de alguns jogadores da França, perante a impressa, seus acólitos. Acusaram os nossos jogadores de serem simuladores e provocadores e de terem influenciado o árbitro na expulsão do simpático e delicado Rooney, quando jogámos e vencemos a Inglaterra. Se a isenção e competência da equipa de arbitragem pode ser tão facilmente posta em causa, terá sido a insistente e provocatória mímica do Sr. Domenech culpada pela cobardia e cegueira da terceira equipa em jogo? Que dizer de Henry na marca de grande penalidade?

Já agora, não critico o muro de betão construído pelos gauleses após o golo da vitória, mas critico a incoerência de uma equipa que se diz profissional e sem manhas, quando vergonhosamente demonstrou o medo que tinha dos portugueses, ao fazer uma segunda parte sem desenvoltura, em anti-jogo constante, cheio de matreiras posses de bola, não deixando jogar nem jogando, fazendo tempo, até ao limite, nos lances de bola parada. Dir-me-ão que isto também é jogo, claro que é, mas não digno de equipas audazes que são realmente campeãs.

Desculpem, também a mim, a falta de isenção, talvez a Itália não mereça o lugar de campeã, mas não resisto em desejar que derrote (de preferência esmagadoramente) a França. Vou assistir ao jogo - ai vou sim senhor - apoiarei os spaghettis até ao segundo final contra os astérix e Obélix. QUE SE ESGOTE RÁPIDO A POÇÃO MÁGICA.

Tenho dito!!!

15 junho 2006

Difícil Acordar



Acordo com a claridade cinza de um dia choroso. Tento enganar o acordar cerrando os olhos e, às apalpadelas, fecho a cortina da janela de sótão. Mergulho na cama, soco as almofadas, crio um nicho para a minha cabeça, mantenho os cabelos na cara, enrolo-me nos lençóis e, finalmente, dou folga às pálpebras.

Não me apetece dizer bom dia ao mundo. Que se danem todos... chau. Não me incomodem!

Dou voltas e mais voltas, pretendo deletar os caóticos pensamentos que recusam dormir e, contrafeita, desisto quando os pés, por auto-iniciativa, enrolam os lençóis, projectando-os com força para o fundo da cama.

Abro os olhos. A claridade da casa-de-banho chama-me através dos vidros que a separam do meu quarto. Imagino-me curvada sob o lavatório, lavando os dentes, espreitando sorrateira a minha figura amarfanhada, desgrenhada e olherenta, resistindo ao imenso espelho que sorri vitorioso.

Primeiro pensamento do dia: Será que a alma tem rugas?

20 maio 2006

De Tolos e Loucos...



Foto de: Pedro Machado



As fotos da minha vida desfilam diante meus olhos fechados, pacatas, repletas de legendas e personagens misturadas - como se o facto de me conhecerem lhes permitisse conhecerem-se?!

A sensação de abandono apanha-me que nem um murro certeiro no estômago. Vejo-me a sorrir, consolo de mim mesma e gosto. Gosto da sensação de me sentir, gosto da emoção de me reconhecer, de ainda me não ter perdido.

Penso nos mundos que teria de contar, mundos que conheci e vivi. Percebo que não existem palavras suficientes e que os pensamentos podem não passar de memórias expurgadas, viciadas pelas várias percepções dos momentos em que existiram, em que ainda não eram memórias.

Dou conta das ténues linhas que ligam os meus mundos, das várias pontes que atravessei em visitas não pensadas. Relembro as alegrias e as tristezas e em ambas reconheço a inocência.

No desfile ininterrupto uma frase surge: “I´m special... so special...” e projecto a minha imagem em dança. As lágrimas saem. Como raio conseguem elas sair tão docemente por debaixo das pálpebras cerradas? Sinto-as quentinhas, a engrossar forças para percorrer o trajecto que as levam ao meu sorriso, onde por momentos ficam quietas, para logo de seguida se perderem.

Fulano de tal, nasceu em... filho de pais miseráveis, teve uma infância infeliz. Aos vinte e tal anos... Páro o pensamento. Então uma infância conta-se assim?, num estalar de dedos?... puf,... teve uma infância infeliz... e já está! Pensem o que quiserem, que os pais lhe batiam mal ele se levantava da cama, que era doente crónico de várias mazelas, que passava fome e era vítima da conjuntura socio-política da época... que fez uma adolescência isolado da realidade, como se de mais uma doença se tratasse, desta vez uma doença proibída, que o envergonhava, até perceber que já não era mais criança. Assim, sem mais nem menos, num outro puf. Para onde foram os sofrimentos? Para onde foram os sonhos? Para onde foram todas as palavras usadas por ele? E as perguntas? Sim, para onde foram as perguntas? E o ar que ele respirou, onde está? E a luminosidade do olhar? As suas lágrimas?...

Tento perceber o que quero transmitir a mim mesma. Por que carga de água é que os pensamentos se enovelam em turbilhão e parecem não ter nexo? Imagino que se alguém dissecasse os meus pensamentos me diagnosticaria uma loucura qualquer.

Vou estender o meu exterior na corda de secar.



19 maio 2006

Socorro... Fui Assaltada

Abril é um mês terrível, repleto de pagamentos e por isso indesejável. Todas as entidades parecem associar-se nesse mês e é um ver se te avias para pagar à EDP, ao SMAS, à Companhia de Gaz, à Telecom, à “Internet”, a Contribuição Autárquica, a mensalidade da casa, os vários seguros da casa, de vida, do carro... e, por falar do carro, a famosa ida à inspecção de veículos, que envolve sempre uma revisão onde o desgraçado acusa sempre danos e os necessários e inadiáveis arranjos para que passe na inspecção.

Desta vez, mal recomposta da substituição da placa de distribuição ou transmissão ou lá o que seja, que sem avisos partiu e fazia o automóvel andar aos solavancos, o estúpido arranja uma mazela que me obriga a comprar um disco de embraiagem novo e mais foles de não-sei-o-quê, uma mudança de óleo e substituição do filtro a ele relacionado e ainda o filtro de ar, para que respire melhor e... a famosa e caríssima mão-de-obra... Como se não bastasse de desgraças, a agravar a situação, fico sem o pópó, porque eles querem-no na oficina, assim, sem dó nem piedade... e eu tenho de andar a pé.

Ok, pensamentos positivos, sempre queimo umas calorias a mais, faz muito bem à saúde, ajuda a manter a linha e sempre se poupa no combustível, etc., etc., etc. O trajecto não é longo, cerca de um km de casa à estação de combóios.... aguento firme.

A coisa até corre bem, o tempo ajuda com os seus dias ensolarados, nada de mais.

Um desses dias, já de regresso, por volta das 16 horas, sigo o trilho em direcção ao lar doce lar. Ligo ao namorado, que prontamenteme me acompanha nesses 15 minutinhos de caminhada. Alegre, palreio e escuto-o. Perto da entrada do meu bairro despeço-me, não quero “tirar-lhe” mais tempo e desligo.

O dedo encontra-se ainda a pressionar o botão do auricolar, quando esbarro contra uma faca que, por acaso, se encontra na mão de um indivíduo, ali bem na minha frente, travando o meu feliz andamento. Caído do Céu? Magia? Estarei a alucinar? Olho-o e reconheço alguém que por alguns instantes caminhara paralelo a mim, bem do outro lado da estrada.

Estes velozes pensamentos são acompanhados por um grito estranho, misto de desespero e susto. Um grito mais parecido com o uivo de um animal acossado. Olho rápido à minha volta e... ninguém, a não ser eu, o indivíduo e aquela faca bem encostada à minha barriga que teimo em encolher. O grito havia saído da minha garganta. Então eu tenho uma reacção daquelas? E um grito assim tão esganiçado? Espanto sobre espanto.

- Passa para cá essa merda!

Indelicado o sujeito. Estúpido de todo. Com que direito me trata por tu?, assim como se fosse um amigo de longa data... francamente. E não saberá ele que me assustou? Tive vontade de o esbofetear e dizer-lhe “- Nunca mais me faça isto OUVIUUU???? Poderia ter tido um ataque de coração, ora faça-me o favor.... que raio, que parvalhão me saiu. Então não sabe que essa faca pode magoar alguém??? Que coisa....” A seguir, tirar-lhe a faca, dar-lhe um golpe de judo ou karate, morder-lhe a mão e partir a faca aos pedacitos. Tudo isso enquanto lhe pregava o maior ralhete e o ameaçava de lhe dar mais se o visse de novo no meu caminho. “- Xô, andor, vá de retro, evapore-se, suma-se tão rápido quanto apareceu na minha frente....”. Nada... Dir-se-ia que o grito inconsciente e irreconhecível - que o meu outro eu mandou para fora de mim – limpou o canal do som, colocou barreiras, fez delete, sei lá. Só a minha barriguinha teimou em se manifestar obrigando-me a respirar pouco, com medo de a expandir, o que poderia dar mau resultado com o bico daquela arma branca que sem ser branca era assustadora como o raio. Atrofiei completamente.

Olho o mágico, o maratonista, o caído do Céu – que eu não o vi atravessar a estrada não senhor . Era um indivíduo de cerca de 20 anitos, tez muito escura, assim mais para o negro, cabelo curtinho, bem apresentado, camisola vermelha e calça de ganga. Parecia até lavadinho. Ora bolas!?!?!?!! Estava ele tão bem do outro lado da estrada, local onde a faca não incomodava nadinha e onde poderia ter continuado... que chatice.

E cadê os heróis??? Hã??? Sim, aqueles que também aparecem de surpresa, torcem o pulso enquanto dão um par de socos ao vilão, assim, sem sequer despentearem um cabelito que seja? Nem vê-los quando são precisos...

Segundos depois do ataque e do meu grito, já lhe dou o telemóvel, o meu companheiro de tantas horas. Faço questão de lhe passar o meu blusão de cabedal que transporto no braço esquerdo, ao mesmo tempo que torço delicadamente o tronco – por causa da faca que nem ouso tornar a olhar – e retiro a mala que transporto como mochila. Dizem que quando a esmola é grande o pobre desconfia e ele deveria ser muito pobresinho porque só quis o telemóvel. Incrédula vejo-o arrancar à bruta o auricolar e com desprezo mandá-lo ao chão.

- Não quero esta porcaria!

Então o anormal não saberá que as ondas electromagnéticas fazem mal ao nosso rico cérebro??? E não consegue imaginar quantos auricolares eu já adquiri para minimizar esses nefastos efeitos? Manda-me assim, sem cuidado algum, o meu querido auricolar para o chão? Parvalhão de todo o estronço. Quer fazer mal à sua saúde, que faça, mas seja mais delicado com as coisas dos outros, ora essa...

Vejo-o afastar-se a correr, em sentido contrário ao que eu tomava e dou comigo já virada na sua direcção, de braço esticado com a mala e o casaco pendurados. Terá levado a faca consigo ou ela ainda ali está, encostadinha a mim???

Breves milésimos de segundo para perceber a impossibilidade, breves milésimos de segundos para me baixar a apanhar o que restava do telemóvel – o auricolar - breves milésimos de segundo para o ver olhar para trás, na minha direcção e perceber a sua hesitação. Ter-se-à arrependido?? A voz do meu outro eu a surgir de novo: “- Não posso tirar uns numerozitos?” tipo último desejo antes de subir ao cadafalso, de forma suplicante... “- Vá lá... só uns numerozitos”. Calo a voz que não reconheço minha enquanto o vejo mudar de semblante, incrédulo. Bem feita... pelo menos surpreendi-o. Ora essa... mereceu. Logo retoma a correria, já sem olhar.

Caio em mim, olho bem a blusa justa ao corpo e não encontro furo algum, nem mancha de sangue... aperto o blusão e a mala contra o estômago, e retomo a minha marcha.

Ahhhhh preciso dizer que o meu filho e dois amigos estavam em casa e, depois de tomarem conhecimento do sucedido, saltaram do sofá (o que nem sempre é fácil) e numa correria desenfreada – indo o meu filho com um taco de baseball – palmilharam com persistência as ruelas fora do bairro. Encontraram-no cerca de cinco telefonemas para Cabo Verde depois. Sacaram-lhe o telemóvel e ainda teve direito a uma basebolada, tendo-se esgueirado com gritos que não terá identificado como seus. Tenho disso experiência e certezinha absoluta.

Afinal os meus heróis tardam, mas não falham.

26 abril 2006

Ganhei um Novo Amigo - V


Foto de: Luís Pereira

Julguei nunca mais ver o meu querido amigo. As sandes que lhe destinava ficavam no saco, de um dia para o outro, enrijecendo, acabando por ser comidas por mim, ou deitadas fora. Do meu pequeno nem sinais de vida e um sentimento de revolta avolumou-se junto com a tristeza pela sua ausência. Pensei procurá-lo junto dos revisores dos caminhos de ferro, mas não o fiz. O simples imaginar que tivesse regressado ao seu país fazia-me mal. Até que o voltei a ver. Não coube em mim de contentamento.

Alessandro, de braços abertos, segurava os ferros dos assentos do comboio, tapando o corredor com o seu corpito. A sua mão esquerda envolvia um dos suportes mesmo ao lado do assento que escolhi para repousar este corpo mal descansado. Olhava em frente, não me viu, por pouco também eu não o via, absorta que ía em vazios pensamentos. Senti a sua presença, não sei como, numa necessidade de olhar para o lado, abrindo os olhos que teimavam em fechar. Vi a sua figura estática de homenzinho pequeno. Sem pensar, debrucei-me sob o lugar vago e agarrei o seu pulso. Baixou os olhos na direcção da minha mão, só depois olhou para mim. Um largo sorriso se abriu e eu ri de contentamento. Falámos ao mesmo tempo, rimos os dois. Soltou-se de mim e, colocando as mãos na cintura, de braços arqueados, semblante carregado, sobrepôs a sua voz à minha, num ralhete que me aqueceu a alma.

- Por onde tens andado?

- Eu ando todos os dias no comboio... não te tenho visto – respondi, prontamente - E tu, por onde andas?.

No silêncio que se seguiu adivinhei o espanto de ambos. Afinal apenas nos desencontrámos, mas lembrámo-nos um do outro e isso, para mim, tornou-me mais rica, mais forte, mais segura, aqueceu o meu interior. Aquele ser, criança, lembrou-se de mim, sentiu a minha falta. Que bom, que delícia. Também eu faço parte do seu mundo, quero sempre fazê-lo.

Bati levemente no assento ao lado do meu, pedindo-lhe que se sentasse. Fê-lo, pouco à vontade, balançando nervosamente as pernitas, olhando sorrateiramente para mim. Os olhos castalhos escuros brilhavam. Por entre um sorriso calmo que adoptou, apercebi-me do mau estado de alguns dentitos. Quantos cuidados precisa aquele menino.

Olhou para mim inquiridor. Baixei os olhos até ao montinho de papéis sebentos que agarrava. Sem permissão, levantei-lhe a manga da camisolita branca de lã. Às minhas narinas chegou um cheiro fortíssimo a sarro. Alessandro respira e fez-me respirar a incómoda marca da ausência de cuidados básicos de higiéne. O seu odor invadiu de tal forma o espaço que me incomodou pensar que ele sentisse o meu cheiro a lavado a que adiciono perfume. No pulso magro vejo o seu relógio .

- Vamos ver? - perguntei-lhe.

- Sim! – respondeu de imediato.

Lembrei-me que tinha mudado de telemóvel e receei que as horas já não coincidissem.

- 14 e 50... - disse-lhe a medo.

Levantou o bracito à altura dos meus olhos e, aliviada, vi a concordância das mesmas. O seu rosto moreníssimo olhou-me e na meigura do seu olhar percebi que aguardava que lhe dissesse algo.

- Certíssimo... nunca falha esse teu lindo relógio.

Sorriu orgulhoso enquanto limpava o mostrador com a manga suja da camisola.

- Julguei que tivesses regressado ao teu país Alessandro...

- Como? Não temos dinheiro... – disse, interrompendo-me, espantado.

- Tu queres regressar? - perguntei-lhe segurando a sua mão.

- Não – balbuciou e, levantando-se, delicadamente retirou a sua mão das minhas.

- Espera – disse-lhe, enquanto procurava uma moeda para lhe dar.

Aguardou de pé, distante. Alessandro terminara o seu período de pausa, entendi que o meu tempo também terminara, ele .não conversaria mais. Percebi que entrara, mais uma vez, no seu mundo proibido, onde ainda não tenho lugar. Estendi-lhe a moeda.

- Até amanhã Alessandro, espero encontrar-te por aqui.

Sorriu-me enquanto iniciava a sua distribuição de chorosos papelitos. É curioso como olha para mim no desempenho da sua tarefa. Sinto que quer guardar a minha imagem. Como gostaria de o acompanhar. Que pensará aquela cabecinha? De cada vez que o vejo repetem-se as sensações de alegria, tristeza e impotência. Não sei o que fazer.

Alessandro inverteu a sua marcha, saiu por onde houvera entrado, andando de costas, olhando-me sempre. Nos seus lábios o sorriso de novo adeus é apagado pelo fechar das portas da carruagem. Junto de mim e em mim, por mais algum tempo, ficou o seu cheiro, o cheiro da criança que adoro e não sei ajudar.

Um ano passou... rápido e não tornei a ver o Alessandro.

Onde quer que andes, pequenino amigo, espero que estejas bem e que o Deus de que tantos falam, se existir, te ajude.

Se um dia te lembrares de mim, olha o teu relógio, quem sabe, nesse preciso instante, não olharei eu o meu telemóvel ao lembrar-me de ti.

25 abril 2006

Ganhei Um Novo Amigo - IV


Foto de: Luís Garção Nunes

Os dias passaram céleres, vi o Alessandro algumas vezes, sempre fora do comboio, na gare. Várias vezes bati nos vidros das janelas até me aperceber da inutilidade do acto. Alessandro parece sempre absorto num mundo próprio, alheado. Os seus pequenos ombros dobram-se sob o peso de calculáveis dramas. Quisera estar enganada, mas aquele puto faz-me lembrar a minha desprotegida criança e isso entristece-me tanto.

Tenho vontade de correr atrás dele, lhe perguntar onde mora. Levá-lo de mão dada até sua casa, falar com quem de direito e pedir que me deixem cuidar dele. Educá-lo com carinho. Implorar que lhe dêem a oportunidade de crescer um pouco melhor.

Sei que Alessandro não é feliz e o pior é que tenho a certeza que não será por recorrer à caridade. Quando se cresce em determinado ambiente o que nos rodeia tem uma importância relativa, desconhecemos tudo o resto. Tenho medo que o alheamento de Alessandro tenha a ver com maus tratos. Sinto um nó na garganta só de imaginar tal. Não quero pressentir horror nos olhos dele, tão pouco imaginar que aquele corpito possa ser alvo de pancada, mas pior, muito pior, não quero aquela cabecinha a pensar em porquês sem resposta, a relembrar a maldade, a sofrer em pensamento, sem ninguém a quem recorrer, sem sentir nas suas faces festas de carinho. Não o quero só.

De novo a minha pequena criança acorda e se revolta, abana meus nervos, comprime meu coração, grita desesperada e faz-se ouvir nas lágrimas que não contenho, mas de nada serve, porque esta adulta que a alberga sente-se impotente, não sabe o que fazer para ajudar Alessandro.

Cerca de um mês sem ver o puto e, quando menos esperava, surge por entre as gentes, quase não o reparo. Vi-o abrir as portas que dividem as carruagens. De pronto me levantei e pedi licença, atabalhoadamente, com saco e carteira e aparelho de mp3 e guarda-chuva e kispo, tudo mal agarrado em risco de cair. Abro com dificuldade as portas, continuo a pedir licença, sem retirar os olhos dele. Por entre estáticas pessoas a sua figurinha desenha-se em movimento.

– Alessandroooooo... - quase grito.

Olha para trás e sorri-me. Consigo colocar tudo no braço esquerdo e estendo a mão direita que logo agarra. Rimos enquanto as sacudimos exageradamente. Sento-me numa cadeira e olho aquele rostinho sujo que retribui o meu olhar.

- Como estás Alessandro?

Perde o sorriso, baixa os olhos e balbucia um “mais ou menos” enquanto balança a cabecita. De imediato me vira as costas, deixando-me boqueaberta, em choque. Abre caminho por entre as gentes e sai do comboio, sem mais me olhar.

Não esperou a sandes que todos os dias levo na mala, na esperança de o ver, não esperou a moeda, não me deixou recuperar do choque e o tentasse aconchegar. Sairia com ele do comboio. Sentar-me-ia junto a si, num chão, longe dos olhares de quem não vê. Queria que falasse comigo, queria tanto que me contasse as suas tristezas, que soubesse que um dia também eu fui uma criança muito infeliz, que, talvez por isso, de forma egoísta, o entenda. Queria que soubesse que gosto muito dele e que pode sempre contar comigo.

Mas mais que tudo queria ser um ombro amigo, falar-lhe mansamente, fazê-lo sentir que ele é lindo e importante. Transmitir-lhe o valor dos sonhos, abrir um mundo novo para ele.

Não o vi durante mais de um mês e a minha criança, encolhida no seu pequenino espaço, chora, em silêncio, a sua ausência.

24 abril 2006

Ganhei Um Novo Amigo - III



Foto de: Grendel

Estive alguns dias sem ver o Alessandro... até que o reencontrei. Apercebi-me da sua pequena figura enquanto afastava as portas de ligação das carruagens. O meu coração alegrou-se. Um sonoro olá, acompanhado por um sorriso lindo, ouviu-se na minha carruagem.
Enquanto distribuía os seus papelinhos pelos outros utentes olhava para mim sem retirar o sorriso, parecia ter medo que eu saísse sem que ele desse conta.

Aproximou-se. De corpo direito, cabecita levantada, altiva, estendeu-me a mão em cumprimento. Apertei-a suavemente e abanei-a várias vezes, rindo. Levantou o braço e, provocador, perguntou-me as horas. Brinquei enquanto retirava o telemóvel da bolsa.

- Vamos lá ver se ainda está certo... – disse-lhe.

Os olhinhos dele olhavam-me expectantes.

- Meio dia e 42 minutos – informei.

Soltou uma gargalhada, enquanto virava o braço na minha direcção e me mostrava o seu maravilhoso relógio, cujo mostrador, iluminado por uma luz azul, revelava as horas que eu houvera dito. Rimos os dois.

- Alessandro... o teu relógio é o máximo – brinquei, enquanto lhe segurava o bracito.

Coloquei um euro no meio das moedas de 10 e 20 cêntimos que aquela mãozinha continha.

- Uauuuuuuu... – emitiu ele, olhando-me contente, mais que agradecido.

Afastou-se feliz. Pouco depois regressou, rodopiou na minha frente, rindo. Abriu as portas e apontou para a rua.

- Saio nesta... – e sem aguardar a minha resposta - Amanhã vens?... Ciao....

Não sei se ouviu o meu sim... mas decerto viu o meu sorriso e aceno, porque se manteve na gare a abanar as mãos, num adeus imenso, enquanto o seu corpo dava leves pulos e, quando o comboio retomou a sua marcha, ele correu ao seu lado, acenando sempre para mim. Ri satisfeita da sua manifestação.

Adoro aquele puto.

Ganhei Um Novo Amigo - II

Encontrei-o de novo. Gosto de ver o seu sorriso voltado para mim. Mal me viu aproximou-se. Enquanto procurava a moeda que se lhe destinava, conversou comigo. Não resisti - pareço uma daquelas velhas tontas que têm sempre que fazer perguntas às crianças - perguntei-lhe o nome. Endireitou o corpo e olhou-me, sem sorrir.

- Não te lembras?... Alessandro... não te lembras? – perguntou-me no seu português arrevezado.

Juraria que nunca mo dissera, juraria que jamais lho perguntara. Os seus olhos castanhos reflectiram uma tristeza inquiridora, senti a sua desilusão. Dei-lhe uma moeda, afaguei-lhe o braço, o cheiro nauseabundo das suas roupas chegou até mim.

Alessandro, sem me dizer “ciao”, afastou-se. Creio que foi magoado comigo.