13 junho 2014

Sexta-feira, dia 13


Sexta-feira, dia 13. Ok, dia normal, pelo menos para mim que nem sequer sou supersticiosa. Certo que o meu gato não é totalmente preto, mas não tenho culpa alguma disso; também não passo por baixo das escadas que vão para o sótão, só porque logo a seguir está uma parede.

Isto para dizer que há uma semana que ando de volta do quintal. Tirei as portas de um telheiro; limei  frestas, lixei as traves; saquei da fechadura; despejei o dito telheiro (fugi de aranhas arraçadas de tarântulas); tropecei em vasos de geração espontânea; mudei plantas (dei pulos gritantes, ao sacudir dos cabelos aranhiços saídos de uma guerra, camuflados de plantas); pintei a parede do fundo do malfadado telheiro; troquei quinhentas vezes a disposição dos três únicos móveis que por lá habitam (fugi de tarântulas disfarçadas de aranhas); pendurei fios eléctricos; arrasei os rins a esfregar com lixívia o chão do quintal; troquei de mangueira e isolei todas as junções: já não há pingos a fugirem para lado algum. No exterior, cortei a relva, adubei, cortei sebes, e passeei a máquina de corte pela calçada, aparando as ervas daninhas: não sei da sachola.

Todas as noites atafulhava o local com os objectos espalhados e fechava as portas, para no dia seguinte retirar tudo de novo. Mas consegui catalogar caixas e tornar mais fácil as minhas buscas futuras. Finalmente sei onde estão os seis pares de luvas de jardinagem, as três vassourinhas, duas bombas manuais de encher pneus de bicicleta e uma de pé. Descobri que fiz bem em não deitar fora a serra eléctrica, porque afinal ainda existe a peça onde encaixa a corrente e que sou dona de alguns vasos – de variadíssimos tamanhos (depois de ter sacrificado a caneca do leite para salvar uma roseira).

Parecia um puzzle, cada vez com menos peças (graças ao caixote do lixo público), mas mais organizado.
Hoje, finalmente - dia 13, sexta-feira -, pintei as portas com bondex e a fechadura com tinta -verde musgo - anti-ferrugem. Aparafusei  a fechadura, com toda a força, lutando contra a resistência da madeira e enquanto, orgulhosamente, enxugava as gotinhas de suor da testa, olhei a parte da frente da porta  e percebi que aqueles deveriam ser os parafusos das prateleiras colocadas no lixo: sobravam cerca de meio centímetro. Retirei a fechadura, não sem antes dar cabo de duas pontas de chave de estrela e recoloquei –a com parafusos menores. Fechei as portas: trincos interiores e fechadura de lingueta normal. Livrei  a mesa do quintal das mil ferramentas e sentei-me orgulhosa, com pequeninas dúvidas, estilo: por que raio sobram sempre parafusos? Terei feito bem em deitar tanta coisa fora? Será que devo ir espreitar o contentor do lixo? Só para ter a certeza…

Fui interrompida pela lata de tinta verde musgo, airosamente em cima da churrasqueira, a pedir que a guardasse no telheiro. Levantei-me, tentei abrir a fechadura. Não cedeu. Forcei – que eu não desisto facilmente, pelo menos até…  a chave partir.

E NÃO TENHO OUTRA!

Hoje - sexta-feira, dia 13 – não terminei as tarefas com a entrada da noite. Abandonei a latinha de tinta verde musgo, na churrasqueira (tem tudo a ver), fui para casa e dei comigo a espreitar as portas do telheiro com a ingrata fechadura.

Resolvi  – não porque seja sexta-feira, dia 13 – aguardar o sábado, dia 14, com imposta serenidade.



2 comentários:

maria guerra disse...

Fica-te a certeza de que ninguem ou algo ira perturbar a arrumacao tao sofridamente conquistada! Ainda dizem que Sexta-feira 13 e' dia de azar!
Ja agora, podes dizer-me quantas horas tem os dias ai p`ros teus lados?
Xi Coracao .

a_ciganita disse...

Acredita que precisava de dias com mais horas, mas só porque me perco (até) nas arrumações). Entretanto já forcei a porta, parti parafusos e estraguei a fechadura. Vou comprar nova aiaiaiaiai.

Beijinhos minha querida.