26 novembro 2014

Tempo



Ai tempo, tempo. 
Passas a correr, vejo-te, sinto-te, mas passas tão rápido: fico impotente de te seguir.
Tenho de redimir-me. Alcançar o patamar da desilusão, da dor de não te ter aproveitado – como o poderia ter feito? Talvez se tivesses tido um pouco de tempo para mim; me abanasses; obrigasses a  perceber o quanto és veloz: que quando passas, já nada pode acontecer antes. Não! Passas levemente, deixas a tua carga pesada, e eu continuo a sentir-te sem te tocar, sem te perceber e sem que me entendas . Poderias ter tido um pouco de compaixão, mas não: continuas a passar, rápido, com um sorriso mordaz – talvez a palavra adequada fosse cínico – e inalterável, como só tu sabes fazer e ser.
Desnorteias-me. Olho para mim e não me vejo, pelo menos como desejaria (ou, como por vezes, me imagino – o que vai dar ao mesmo). E todos os dias me apetece agarrar-te  - sem saber por onde -  parar-te, acorrentar-te e recuperar o que sei  teres-me tirado e dar-te o que me deixaste.
Mea culpa!
 Mas não quero que seja só minha: arrepanha-me a solidão cheia de vazios e de ti. E porque te sei meu carrasco, não te perdoo. Dás-me esta coisinha crescente que alimenta esta ânsia de nada querer ver, de não desejar este teu passar, que dói e me maltrata e me faz cair em letargia estranha e fútil.
Confesso: talvez não saiba viver, aproveitar-te… sei lá… Se algum dia te desejei  foi há muito, há muitos pedaços de ti: tinha motivos para tal, mas já não te quero, pelo menos com tal intensidade. Não podes abrandar? Porque continuas a acelerar?
Dói-me o corpo enquanto durmo; mirram-se-me os ossos (à sucapa) nesse dormir. Infortúnio me trazes em cada dia que me tiras. Humedecem meus olhos nesse desgate imparável;  meu coração aflige-se: tudo por tua causa.
Se ao menos soubesse o que fazer no tempo que ainda me vais roubar… mas não. Tu passas pela calada, largas vestígios que não pretendo – ingrato. Não és capaz de largar pequenas pistas de sorte. Nada. Carregas gargalhadas finas de areia a escorregar pela ampulheta da vida: e não a viras – nunca.
Por isso te acuso: és um mau professor; maltratas-me;  jogas mal o baralho da minha vida. Bem sei que olho as estrelas e o mar e o verde lindo da natureza – ponteado de cores e vários brilhos -, com olhos de esperança, mas de que me serve? Mais parece o brinquedo que se promete sem dar. Acenas o destino, veste-lo de arco-íris e eu (pobre coitada) caminho em busca do pote de ouro no seu final: nunca o encontro.

Não gosto de ti!
Impiedoso e feio te tornas a meus olhos. Vestes agora – cada vez mais – de negro, e tens garras sujas de veneno da desesperança, tristeza, solidão. E sei onde todo esse vertiginoso acumular acaba – sim que tu não me poupas ao teu passar. Vais-me lembrando, durante os sonhos (cada vez mais interrompidos); largas mensagens pelo meu corpo e (quando, assustada, desvio a atenção de ti) aceleras meu coração; dificultas meu respirar e obrigas-me a perceber que um dia – um dia qualquer, à tua escolha – largarei o meu penar e as minhas alegrias, deixarei de ser quem me fizeste: abandonar-me-às.
Eu, de tudo me abandonarei!

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