20 janeiro 2017

O sonhador de pés bem assentes na terra

(pintura de Júlio Pomar)


Há quem defenda que a morte deve ser encarada como um patamar final da vida, inevitável, sem dúvida, mas normal. Tudo muito bonito, mas eu não lido bem com esse patamar sórdido, negro e de onde não se sai para mais lado algum (pelo menos assim o creio). Já não pensando no meu patamar, aflige-me ver esse final em seres por quem nutro amor, simpatia, ou admiração.

Mário Soares partiu. Viveu várias vidas, obstinado, crente no que sentiu verdadeiro, corajoso. Para mim foi uma das figuras que mais marcaram a minha história de vida e, decididamente, das mais carismáticas. Admirava-o enquanto ser humano e quase invejava o seu espírito livre, decidido e arrojado. A sua inteligência parecia-me palpável e simples. Algumas vezes tive dúvidas quanto ao seu altruísmo (talvez pela facilidade com que se impacientava), mas considerei sempre que, na minha balança (e sei lá eu explicar como a ponho a funcionar e quais os pesos que nela coloco), o Mário Soares pendia sempre para o melhor e para o mais positivo e que por isso eu lhe estava grata. Vi o seu aparecimento - neste país a querer largar o cinzentismo – com admiração, mas meus olhos eram ainda novos para avaliar a sua importância por entre tantos outros rostos que com ele emergiram. Claro que também fui uma voz discordante de alguma posições suas.

Os anos foram passando. A vida deslapidou seres importantes até que chegou a vez de Maria Barroso. Nessa altura, dado o tempo que passaram juntos (cerca de 70 anos), lembro-me de ter pensado que o Mário Soares não duraria muito mais, pela tristeza e solidão que passaria a sentir, sem o amor de sua vida. Hoje considero que, tendo ele a idade que tinha aquando da morte de sua esposa, dificilmente erraria o meu pensamento.


Viveu o que lhe foi possível e se a sua idade já não lhe permitia projectar a voz (de tom aberto, autoritário e destemido) para afastar algum elemento indesejado, ou abrir/alertar mentes; se a idade, lhe retirou as forças para caminhar por entre vales e serras, ou pura e simplesmente o impossibilitou de se agarrar a uma carruagem de comboio ou projectar o corpo para fora da janela de um carro, enquanto - de sorriso aberto e, mais uma vez, destemido - abria os dedos indicador e médio em V de vitória, ou o polegar em fixe; se a idade já não lhe permitia intervir impetuosamente contra males abomináveis (onde a desumanização se enraíza quase a tornar-se normal nos dias que passam) de forma a deixar claro que o medo e o silêncio apenas promovem a enormidade do que de mais errado possa existir; essa mesma idade não apagou a curiosidade, nem o discernimento político, social e cultural que só um grande Homem pode conter e que para mim estava bem visível no seu olhar.

Fiquei triste pela sua morte, ainda estou triste. Mas sei que a minha maior tristeza reside na certeza de que poucos serão tão destemidos quanto Mário Soares e, sobretudo, poucos entregarão a sua vida com lutas tão dignas de forma tão convicta, sonhadora e corajosa.

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