Hipnotizada, olhava
os magníficos cabelos ondulados. Corpinho lançado para a frente, dedinhos
finos, a agarrarem o assento da frente sem se atreverem a entrar pelos fios
dourados que, ligeiramente, abanavam a cada curva da estrada.
Seríamos quantos
nessa altura? Tu, o pai, três ou quatro filhos?
O pai a conduzir, atento a tudo: à paisagem, à estrada, a ti,
aos filhos enfiados na parte de trás do carro.
- Ai, Zé João… -
ouvia-se a tua voz em súplica.
Ele olhava rápido
para ti, ainda ignorante, mas não totalmente admirado.
E lá vinha o rol de
possíveis esquecimentos: o fogão ligado, não!, o ferro de engomar por desligar…
a torneira da banheira?! A porta aberta?...
Era um clique que te
dava e que era, sempre, infundado (pelo menos que me lembre).
Ele tentava apagar-te
as dúvidas.
A praia ali tão
perto, com pinhal à porta… “vá lá, tens a certeza? Pensa bem. Vá lá.”
Tu pigarreavas,
baixavas a cabeça de cabelos ondulados a dançarem, alheios a tudo.
E lá regressávamos nós.
Olhos silenciados,
olhos de imaginação dourada.
Olhos sempre colados
aos teus ondulados cabelos.
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