27 junho 2017

Parabéns Minha Mãe






Hipnotizada, olhava os magníficos cabelos ondulados. Corpinho lançado para a frente, dedinhos finos, a agarrarem o assento da frente sem se atreverem a entrar pelos fios dourados que, ligeiramente, abanavam a cada curva da estrada.

Seríamos quantos nessa altura? Tu, o pai, três ou quatro filhos?

O pai a conduzir,  atento a tudo: à paisagem, à estrada, a ti, aos filhos enfiados na parte de trás do carro.

- Ai, Zé João… - ouvia-se a tua voz em súplica.
Ele olhava rápido para ti, ainda ignorante, mas não totalmente admirado.
E lá vinha o rol de possíveis esquecimentos: o fogão ligado, não!, o ferro de engomar por desligar… a torneira da banheira?! A porta aberta?...
Era um clique que te dava e que era, sempre, infundado (pelo menos que me lembre).
Ele tentava apagar-te as dúvidas.
A praia ali tão perto, com pinhal à porta… “vá lá, tens a certeza? Pensa bem. Vá lá.”
Tu pigarreavas, baixavas a cabeça de cabelos ondulados a dançarem, alheios a tudo.

E lá regressávamos nós.

Olhos silenciados, olhos de imaginação dourada.


Olhos sempre colados aos teus ondulados cabelos.

Sem comentários: