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14 outubro 2017

A ti meu filho lindo

Há anos (desde os 20 ????) que procurava um CD - O Milagre dos Peixes - de Milton Nascimento, com participação de Wayne Shorter . Ontem finalmente encontrei-o, mas só hoje percebi que era o tanto desejado: afinal o CD é de Wayne Shorter featuring Milton Nascimento, e chama-se "Native Dancer". 

E foi logo na primeira nota ouvida - uma nota que me atacou de mansinho e me fez sentir uma nostalgia tão triste e tão estranhamente eufórica - que dei por mim de braços abertos, a rodopiar pela sala, a chorar mais um regresso de mim. Há nostalgias boas. Esta é uma delas. 

Só para aguçar os sentidos, nele participam ainda: Airto Moreira, Wagner Tiso, Herbie Hancock...

Para ti meu filho, que fazes anos hoje, embora saiba que outros gostos te pertençam, envio cheio de carinho, carregado de amor, um tema.


Acredita meu querido filho: a mãe rodopia por entre cada notinha, por entre cada sussurro, por entre cada pausa, de amor a transbordar por ti... sempre (mesmo quando a distância parece existir).

Sê feliz, meu filho. 





27 junho 2017

Parabéns Minha Mãe






Hipnotizada, olhava os magníficos cabelos ondulados. Corpinho lançado para a frente, dedinhos finos, a agarrarem o assento da frente sem se atreverem a entrar pelos fios dourados que, ligeiramente, abanavam a cada curva da estrada.

Seríamos quantos nessa altura? Tu, o pai, três ou quatro filhos?

O pai a conduzir,  atento a tudo: à paisagem, à estrada, a ti, aos filhos enfiados na parte de trás do carro.

- Ai, Zé João… - ouvia-se a tua voz em súplica.
Ele olhava rápido para ti, ainda ignorante, mas não totalmente admirado.
E lá vinha o rol de possíveis esquecimentos: o fogão ligado, não!, o ferro de engomar por desligar… a torneira da banheira?! A porta aberta?...
Era um clique que te dava e que era, sempre, infundado (pelo menos que me lembre).
Ele tentava apagar-te as dúvidas.
A praia ali tão perto, com pinhal à porta… “vá lá, tens a certeza? Pensa bem. Vá lá.”
Tu pigarreavas, baixavas a cabeça de cabelos ondulados a dançarem, alheios a tudo.

E lá regressávamos nós.

Olhos silenciados, olhos de imaginação dourada.


Olhos sempre colados aos teus ondulados cabelos.

A um grande amigo, que “quase sempre” fez anos um dia antes de eu fazer



(Foto retirada por mim da página do Facebook da "Real República Baco")



Ali estavas tu, galináceo, como te apodou o meu pai quando um dia, ao visitar-me, te encontrou à porta da minha casa, na famosa Rua das Flores, 31. Fingi que nem te conhecia, disse-lhe que achava seres primo de uma colega. Meia verdade. Mal sabia o meu pai que virias a ser - tão somente - o meu ombro amigo e das pessoas mais importantes que conheci.

Ali estavas tu, escondido numa carapaça de humor irónico que se desfazia aos primeiros efeitos da cerveja partilhada comigo. Pisávamos então os primeiros degraus de gente livre, ainda cheios de fantasmas. Cheirávamos a adolescentes inocentes e infantis, com ganas de viver. E ali estava eu, sempre pronta a acompanhar-te nas saídas doidas: a correr pelo Quebra Costas, rumo a nada, ou pelas ruelas apertadas de cheiro a sabedoria ancestral. Muitas das vezes seguíamos com o Testa de Quilha, por isso, muito mais doidos, a interromper a conversa uns dos outros, a querer tempo de antena, a percebermos laços indestrutíveis entre nós, as nossas maluqueiras, as nossas ânsias, tudo misturado a dar-nos uma felicidade indestrutível.

Em Coimbra o meu mundo era muito mais bonito, mais cheio e – sobretudo – muito menos assustador: por vossa causa. Mas eras tu que mais próximo te encontravas de mim. Talvez porque revelavas uma fragilidade gémea da minha. E por isso os nossos sonhos tocavam-se (mesmo que não os conhecêssemos ainda) e era fácil conversarmos, como se a vida (no meu caso tão má) não existisse para além da amizade que nos unia. O nosso mundo era uma autêntica correria de querer respirar, de querer que o ar jamais acabasse de nos inebriar. A miúda toda certinha, de educação exemplarmente castrante, tinha amigos: amigos homens (sacrilégio!), com quem saía pela noite fora a entrevistar “homens do lixo”. E gostava! Gostava da cerveja a correr de boca em boca, dos cigarros partilhados, da sede de viver. E nem as proibidas palavras que sempre disseste em catadupa, me fizeram não gostar de ti. Por isso vestia a tua roupa e saía de bigode pintado a lápis dos olhos, só para fingir que não era eu, para me disfarçar, mas no fundo, no fundo, era só porque sim. Por isso te engravidavas de pão roubado à porta da Faculdade de Medicina, para juntar ao leite magistralmente retirado da porta do Hotel, na margem do Basófias.

Foram dos melhores tempos que vivi. Tempos pintados de horrores, graças a um passado estúpido, gravado a muito sofrimento e à flor da pele, que ajudavas a atenuar até ao esquecimento. O riso, libertador e sempre novo, misturava-se com todas as maroteiras, todos os dizeres e trapalhadas que inventávamos: bombinhas de Carnaval a rebentar na sala da Baco, com fugas atabalhoadas e bastante barulhentas; baldes e alguidares cheios de água à espera do incauto, ao ponto de dificilmente existirem roupas secas para vestirmos; enceramento exagerado do soalho velho, logo à saída dos quartos para que algum desgraçado se espatifasse; despejamento dos quartos, com toda a mobília colocada em frente à Igreja; fugidas à polícia… E quase sempre tu a seres culpabilizado pelo senhorio pelos estragos de tanto “vandalismo”.

Ninguém te mandava espreitar pela janela, de cada vez que, após as traquinices, tocavam a campainha.

E hoje lembraste-me de alguns dizeres outrora escritos nas paredes da República:

Se a merda
Desse música e som
A cabeça do Rui
Era uma televisom.

(autoria: Dina Paula tua prima)

“Vou para casa que tenho a roupa ao lume”
(Teresa, depois de umas garrafitas, no Califa)

E

Assim fazíamos jus ao poeta:
 “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
A nossa foi sempre enorme.


Alguma vez te agradeci?

20 janeiro 2017

O sonhador de pés bem assentes na terra

(pintura de Júlio Pomar)


Há quem defenda que a morte deve ser encarada como um patamar final da vida, inevitável, sem dúvida, mas normal. Tudo muito bonito, mas eu não lido bem com esse patamar sórdido, negro e de onde não se sai para mais lado algum (pelo menos assim o creio). Já não pensando no meu patamar, aflige-me ver esse final em seres por quem nutro amor, simpatia, ou admiração.

Mário Soares partiu. Viveu várias vidas, obstinado, crente no que sentiu verdadeiro, corajoso. Para mim foi uma das figuras que mais marcaram a minha história de vida e, decididamente, das mais carismáticas. Admirava-o enquanto ser humano e quase invejava o seu espírito livre, decidido e arrojado. A sua inteligência parecia-me palpável e simples. Algumas vezes tive dúvidas quanto ao seu altruísmo (talvez pela facilidade com que se impacientava), mas considerei sempre que, na minha balança (e sei lá eu explicar como a ponho a funcionar e quais os pesos que nela coloco), o Mário Soares pendia sempre para o melhor e para o mais positivo e que por isso eu lhe estava grata. Vi o seu aparecimento - neste país a querer largar o cinzentismo – com admiração, mas meus olhos eram ainda novos para avaliar a sua importância por entre tantos outros rostos que com ele emergiram. Claro que também fui uma voz discordante de alguma posições suas.

Os anos foram passando. A vida deslapidou seres importantes até que chegou a vez de Maria Barroso. Nessa altura, dado o tempo que passaram juntos (cerca de 70 anos), lembro-me de ter pensado que o Mário Soares não duraria muito mais, pela tristeza e solidão que passaria a sentir, sem o amor de sua vida. Hoje considero que, tendo ele a idade que tinha aquando da morte de sua esposa, dificilmente erraria o meu pensamento.


Viveu o que lhe foi possível e se a sua idade já não lhe permitia projectar a voz (de tom aberto, autoritário e destemido) para afastar algum elemento indesejado, ou abrir/alertar mentes; se a idade, lhe retirou as forças para caminhar por entre vales e serras, ou pura e simplesmente o impossibilitou de se agarrar a uma carruagem de comboio ou projectar o corpo para fora da janela de um carro, enquanto - de sorriso aberto e, mais uma vez, destemido - abria os dedos indicador e médio em V de vitória, ou o polegar em fixe; se a idade já não lhe permitia intervir impetuosamente contra males abomináveis (onde a desumanização se enraíza quase a tornar-se normal nos dias que passam) de forma a deixar claro que o medo e o silêncio apenas promovem a enormidade do que de mais errado possa existir; essa mesma idade não apagou a curiosidade, nem o discernimento político, social e cultural que só um grande Homem pode conter e que para mim estava bem visível no seu olhar.

Fiquei triste pela sua morte, ainda estou triste. Mas sei que a minha maior tristeza reside na certeza de que poucos serão tão destemidos quanto Mário Soares e, sobretudo, poucos entregarão a sua vida com lutas tão dignas de forma tão convicta, sonhadora e corajosa.